Comentários, reflexões, dúvidas, queixas e lamúrias, congratulações e alegrias, artigos, crônicas, sonhos, desejos, planos, delírios... pontos de vista...e algumas histórias!
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
sexta-feira, 8 de março de 2013
Ana*, a terceira geração de uma família de mulheres vitimadas por seus parceiros
A genética e a psicologia já explicaram muito sobre o indivíduo e suas relações, ações, reações, paixões, afetos, fobias e impulsos. Mas, ainda nos surpreendemos quando nos damos conta que gerações de um mesmo grupo familiar parecem repetir a mesma vida e que suas tentativas de mudar o destino são trabalho de Sísifo.
São 4h30 da tarde. Em uma pequena escola de idiomas, alguns alunos estão sentados próximos à mesa da recepção, dissimulando indiferença frente à jovem cujo tom vermelho dos olhos compete com o da parede aos fundos da sala. Entre lágrimas mal contidas, soluços e suspiros, Ana*, a recepcionista, escuta a gerente rispidamente pedir que ela saia da mesa de atendimentos para se recompor. Da sala de aula, sou interrompida de tempos em tempos pelas dúvidas de uma aluna, pelo barulho de aviões e pelo choro da moça que, agora do lado externo da casa que abriga a escola, anda de um lado a outro aos prantos. Apenas uma parede com janelas nos separa.
Alguns dias depois, a pedidos, ela me conta sua história. Não é a primeira ameaça. Segundo ela, Ronaldo* já havia feito muitas outras: “Vou te matar, vou acabar com a sua vida”. “Se você não ficar comigo, não ficará com mais ninguém”. “Não vou deixar nenhum homem criar a minha filha”.
Ana* se apaixonou aos 15 anos, se casou aos 17 e veio de uma estância hidromineral paulista para a capital do estado, em busca da realização do sonho do marido. Ronaldo* fez vários cursos e queria ser cabeleireiro. Montou um salão relativamente bem sucedido em um bairro na zona sul da cidade. É desse momento em diante que a vida da moça se transforma em pesadelo.
As dolorosas experiências pelas quais tem passado nos últimos anos não se refletiram em sua aparência, no entanto. Não é alta, nem baixa. Não é gorda, nem magra. Sua tez muito branca, os olhos esverdeados, os cabelos claros na altura dos ombros e o sorriso metálico – ela usa aparelhos dentários – lhe dão um ar suave e adolescente. Poderia facilmente ser confundida com uma colegial. Sua delicadeza não permite adivinhar seus 24 anos. Ela é mais jovem que sua própria juventude.
O marido, quatro anos mais velho, é, segundo a recepcionista, teimoso e agressivo, uma pessoa que não ouve o que os outros falam e que não se importa com ninguém. Ela sustenta que, no entanto, nem sempre foi assim e afirma que o relacionamento no início era maravilhoso: “Me tratava como uma rainha”. Após dois anos em São Paulo, decidiram ter um filho. Daniella* nasceu e Ana* parou de trabalhar, dedicando-se a ela em seus primeiros seis meses de vida. Foi mais ou menos por essa época que Ronaldo* começou a beber descontroladamente e a fumar maconha.
Ana* culpa as novas amizades, adquiridas em um contexto de crescimento profissional de Ronaldo*. Culpa, também, seu ego inflado: “Ele começou a ganhar muito dinheiro, quis aparecer”. O jovem marido se tornou, assim, uma paródia daquelas celebridades hollywoodianas, que jornais especializados em fofoca costumam alardear as idas forçadas às clínicas de reabilitação. Incapaz de administrar com equilíbrio o próprio “sucesso”, sucumbiu aos seus efeitos colaterais mais deletérios. Alterado quando bebia, destratava a mulher em público e, dentro de casa, exigia que ela se levantasse durante as madrugadas para lhe preparar comida. A cada negação da esposa, agressões verbais, até que um dia cabeceou-lhe o nariz.
Ela não foi à delegacia. Alega que não adianta denunciá-lo porque a polícia não pode protegê-la: “Porque a única coisa que eles vão fazer é mandar ele manter distância de mim, de alguns metros. Isso acontece com mulher no mundo inteiro, a polícia não faz nada, só faz depois que acontece. Ele vai fazer o que ele quiser fazer.”
Apesar do medo de morrer, Ana* busca conforto na dúvida que tem de que o marido seria realmente capaz de matá-la: “Eu fico assustada, né? Eu penso na minha filha. Tenho medo dele fazer alguma coisa, mas não sei, não tenho certeza que ele vai fazer tudo o que ele fala. Eu sou mãe da filha dele, não acho que ele tenha coragem, a não ser que ele tenha um motivo muito sério pra fazer isso, mas ele não tem”.
O pedido de separação
Em março deste ano (2011), Ana* pediu a separação. Ronaldo* não saiu de casa. Se recusou a sair de lá. Ela decidiu ir embora com a filha, foi para a casa da mãe. As ameaças que antes ocorriam quando o marido estava bêbado, após a separação forçada passaram a ocorrer mesmo quando ele estava sóbrio. Às 10h da manhã seguinte àquela em que Ana* chorava no trabalho, Ronaldo* passou pelo portão da casa da recepcionista antes que a mulher tivesse tempo de perceber e fechá-lo. Em segundos, ele estava na sala de estar, onde àquela hora a moça assistia sozinha à televisão.
O (ex) marido chegou nervoso. Em meio à ladainha habitual: “se você não for minha, não será de mais ninguém”, chorando, puxou a moça pelo cabelos forçando-a a se ajoelhar, sacou uma arma e deu dois disparos, mal sucedidos, em sua direção. Ana* narra os fatos rindo, descarregando sarcasmo e aliviando a tensão. Entre o choque do insucesso e a incredulidade frente ao que acabara de fazer, Ronaldo* desespera-se e começa a berrar. Uma vizinha acode e, ao chegar no local, ameaça chamar a polícia. Ronaldo* vai embora, Ana* é tomada de pavor. Naquele dia é escoltada pelo namorado da mãe até o trabalho. No caminho, nota que ele a observava da “esquina da rua de baixo”.
Ana* tem medo do marido agressor. Mas,o que pode fazer uma jovem acuada que não confia naqueles que têm por ofício a obrigação de protegê-la? Se leis e tutelas judiciais não são obstáculos poderosos o suficiente para convencer alguém obcecado pela ideia de matar a não fazê-lo, de que servem à moça? “Preferi ficar em casa, me isolar. Não atendo mais telefone, mudei o número de casa”. Ele ainda a procura todos os dias. Todos os dias está no portão da sua casa. Vê a hora que ela chega. Vive atrás dela. “Minha vida é só trabalhar e ir pra casa. Não faço nada pra não dar motivo pra ele achar que eu tô fazendo alguma coisa e vir atrás de mim”. Ela afirma ter medo, mas conclui: “Se tiver que acontecer vai acontecer. Eu não vou parar minha vida por causa dele, entendeu?”, sem se dar conta da própria contradição.
O aborto
Há dois anos Ana* já não estava mais feliz na relação. “Quando a gente completou quatro anos juntos eu desanimei, comecei a desanimar. Nos últimos anos só fui empurrando com a barriga, por causa da minha filha, porque ela é louca por ele”. Este ano (2011) eles completariam bodas de açúcar, mas a vida em comum há muito já não tinha nada de doce.
Na recepção da escola em que trabalha, relembrando os fatos, Ana* se emociona, os olhos se encharcam de lágrimas e ela faz uma confissão: “Ele me fez fazer coisas que eu nunca imaginei que fosse fazer depois que a gente se separou. Eu engravidei dele. Eu tirei”. O assunto se estabelece subitamente, vem à tona como um segredo que não aguenta mais ser guardado. Precipitada, concluí com espanto que ela havia sido estuprada. Ela rejeitou a ideia com certo horror, corrigindo-me com pressa. Não havia sofrido violência, apenas se entregara a ele em um estado de ânimo oscilante entre o costume e a resignação: “Porque como eu disse, há 2 anos a gente vinha empurrando com a barriga. Eu não queria como antes, mas aconteceu”.
Ela não queria a criança, mas ele estava feliz com a novidade. Ana* tentou convencê-lo do aborto e, quando ela própria já não tinha mais tanta convicção de sua decisão, ele concordou com ela. Como dizia Vinicius de Moraes: “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Ronaldo* lhe deu o remédio que daria fim à gravidez. Aquilo doeu em Ana* com mais força do que todas as agressões a que ele a tinha submetido. Bastante abalada, ela diz que se arrepende: “Nunca imaginei que faria isso. Eu sofri demais, doeu, até hoje eu sinto dor”.
O histórico familiar
Questionada sobre a posição dos seus pais frente aos fatos, Ana* esclarece que a mãe a apoia e revela que não tem pai, nunca o conheceu. “Acho que, se eu tivesse, seria tudo diferente… Ah, sei lá. Acho que quando você tem a presença masculina em casa, quem tá convivendo com você, te respeita muito mais”, reflete melancólica. O pai bebia demais, assim como Ronaldo*, e agredia sua mãe, assim como Ronaldo* a agredia. Um dia o pai partiu e a mãe não o procurou. Criou Ana* sozinha, que do pai herdou a aparência, mas não o sobrenome. “A situação deles foi igual a minha com o Ronaldo*”, define amargurada.
Até seus 15 anos de idade, Ana* acreditava que o padrasto era seu pai, quando um vizinho indiscreto comentou que havia evitado seu sequestro pelo verdadeiro genitor quando a menina contava 3 anos de idade. Encontrar o pai então tornou-se uma obsessão. Morre de curiosidade de saber como ele é. “Todo mundo que me conhece e conhece ele, as pessoas e familiares, diz que eu sou a cara dele. Minha mãe é morena, parece índia. E ele não. Todo mundo diz que ele é loiro, alto, tem o olho claro, é alegre. Não quero ter contato, que eu sei que ele fez mal pra minha mãe, quem garante que ele não vai fazer agora também!? Não queria contato nem nada, só tenho curiosidade de olhar pra cara dele. Só isso”.
A família de Ronaldo* está ciente da situação enfrentada pelo casal, mas segundo Ana*, de “mãos atadas”. O filho é resistente aos conselhos dos pais. Com o genitor mantém apenas um acordo: o gosto pela bebida. “O Ronaldo*, ele faz tudo o que o pai dele faz. O pai dele bebe muito. Todos os irmãos bebem que nem o pai. Deve ser hereditário isso”.
Para a filha Daniella*, Ana* deseja a felicidade que as mulheres de sua família têm buscado sem sucesso. “Todas as atitudes que eu quero tomar, é só por ela. Eu tô correndo atrás, quero um lugar pra eu morar, estou atrás de trabalho. Eu quero tudo pra mim ficar longe dele, trabalhar em outro lugar, pra mim não ter a mesma história que a minha mãe ou pior. Porque na minha família as histórias não são tão boas assim”, diz entre amarga e constrangida.
A irmã de sua mãe foi assassinada por um ex- namorado que não aceitava o fim da relação. Ela tinha uma filha que, revoltada , “virou garota de programa” e seguiu uma vida “louca”. O homem está solto até hoje. Na famíla de Ana* as histórias são muito parecidas. “A minha avó, o meu avô largou ela muito cedo e ela criou os filhos sozinha. “Ela enterrou dois filhos, o meu tio - um assaltante morto na cadeia - e a minha tia, aí ela não aguentou e faleceu”.
Se “fugir” com a filha, Ana* pretende dizer tudo sobre sua origem porque não quer que a menina passe pelo que ela própria está passando hoje, adulta, tentando encontrar o pai. Acredita que é um direito de ambos o reconhecimento da relação que os une, independente do que aconteceu. De qualquer forma, ela diz que terá que se esconder, por conta das perseguições que ele empreende. Ele não a deixa em paz. Se pudesse teria feito diferente. “Da minha filha eu não me arrependo, ela foi a maior benção que aconteceu na minha vida”, diz em meio às lágrimas, “mas casar, acho que não teria me casado”. Nem nunca irá casar de novo, segundo ela. “Eu quero sumir. Tenho vontade de fazer uma besteira só pra não ter que olhar pra cara dele. Mas, aí eu penso na Daniella* porque ela não tem culpa de nada, entendeu? Ela é tudo na minha vida e gosta do pai, mas é super compreensiva e inteligente para os 4 anos de idade. Tanto que quando eu saí de casa, ela falava: ‘Vamos, mamãe, embora. O papai tá bebendo’. Isso que me deixava mais chateada, porque ela vendo tudo isso… ela não podia ver, ela tem 4 anos. Se não fosse ela, acho que não teria conseguido”.
Os planos para o futuro
Ana* reflete sobre sua situação com o (ex) marido: “Ah, eu gostaria que ele fosse uma pessoa diferente. Ele pede desculpas, vem atrás, diz que nunca mais vai fazer. Mas, isso ele já fez várias vezes”. Ela ainda gosta dele, mas guarda muito mágoa. “Pra voltar, acho que eu não voltaria”, diz incerta, para acrescentar já mais convicta e um tanto irritada: “Minha vontade é sumir daqui, não ver ele nunca mais”.
Ela está vendo lugares para morar, para não ter que ficar perto dele. “Eu tenho medo dele me fazer alguma coisa. Pior, ir atrás da minha filha, buscá-la na escola”. A mãe dela não quer que ela vá. “Se eu for ela vai comigo. Sem mim ela não fica, ela é muito preocupada. Mas, eu evito contar os detalhes pra ela não ficar tão nervosa. Tenho medo da reação dela. Dela ir atrás dele e ele fazer alguma coisa com ela”. Planeja voltar a estudar, fazer uma faculdade. Ana* terminou o segundo grau, mas logo começou a trabalhar e depois teve a filha, não houve oportunidade. “Ano passado eu tinha ganho uma bolsa de estudos na Unip, de 100%, só que ele não deixou”. Ele não a deixava fazer nada, nem sequer ir à padaria. A ideia dela, agora, é estudar marketing: “É uma área que eu gosto”, diz sorridente, sonhando um sonho que já não é mais o do marido.
Entrevista realizada em 2011, durante oficina de perfis na ECA-USP e apresentada como TCC do curso de extensão em jornalismo e políticas públicas promovido pela ANDI em parceria com a ECA-USP.
*Os nomes reais das personagens foram trocados para preservar suas identidades, a pedido da entrevistada.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Reflexões pós-cirúrgicas
| Lixo: apenas partes do corpo vestigiais e orgãos inúteis (ex. apêndice, amígdalas e vesícula) |
É o dia mais quente do inverno.
Minha barriga dói. Deitada sobre ela, entediada, sou de tempos em tempos
assediada por ondas de calor e culpa. O ventilador não traz alívio. Ele se
aproxima, cruzando o pequeno corredor. A camiseta laranja velha e a cueca branca
denunciam os anos de relacionamento: catorze. Ele me beija as costas, acha
graça do modelo da calcinha e examina meus tornozelos. Sai do quarto e retorna
em 10 segundos carregando uma lâmina cega de barbear. Eu emito grunhidos de
irritação e alguma dor ao me mover enquanto tento mantê-lo perceptível aos
olhos. Ele agarra minhas pernas e passa a raspar alguns pelos ralos. Eu me
contorço pra evitar uma gargalhada e a barriga dói mais. Eu amo esse homem.
São 04 pequenos pontos roxos
estampando uma piscina de pele cor de rosa.
Quando eu era pequena, e tive
catapora, costumava me esconder no banheiro onde meu pai guardava nossa pequena
farmácia para mexer nas agulhas descartáveis, as esterilizava com perfume e ia
espetando, uma a uma, as bolhinhas sobre a pele. Sempre gostei de experimentos
do tipo: estourar bolhas, espremer machucados, arrancar casquinhas, apesar de
ter renegado a medicina como ganha-pão.
Cada ponto roxo é coberto por uma
capinha plástica, grudada à pele, tão grudadinha que a custos contenho o ímpeto
de ir deslizando a unha por baixo, descolando o tecido transparente que
começa a sair do lugar.
Sinto-me um pouco grávida ao
contrário. O parto fora feito, mas a barriga inchada e os incômodos vieram
depois. Eu pari umas pedrinhas e alguns pedaços de vesícula, abandonados em
um potinho transparente que repousa sobra a mesa de jantar. Ainda no hospital,
eu achei aquele souvenir
pós-cirúrgico um tanto mórbido, quis abandoná-lo na lata do lixo, tal qual certas mães desalmadas o fazem após parirem as crias, mas não consegui. O
fruto do meu ventre foi recolhido pelo marido, preocupado com gentilezas: “eles
tiveram o trabalho de separar em um vidrinho e etiquetar, eu não poderia deixar
lá”.
Agora, meu mundo cai e a barriga
dói.
São contas de bancos a entrarem
de greve, uma cozinha que não se monta sozinha, decisões pesando sobre o
pescoço como guilhotinas e um medo grande, bem muito grande do futuro próximo.
A sexta-feira chegava com o
emprego novo, e o meu corpo confundido pelas minhas expectativas, resolveu ele
mesmo me dar trabalho.
Corremos todos ao hospital, eu e
a família onipresente. Horas de espera e nenhuma dor – graças às ironias da
vida, 04 buscopans e um metabolismo garfieldiano. Optou-se pela mutilação.
Já na sala de cirurgia, dopada,
eu sabia o que estaria por vir, mas não antecipei os desdobramentos. São 04 singelos
furos. Por um deles me enchem de ar, que nem balão de aniversário; pelos outros
três cortam e recortam o saquinho quase inútil que deu pra me sacanear. Eles te
enchem de gás carbônico, e depois ficam com preguiça de chupar o resto de
volta, aí você fica assim, parecendo bexiga de fim de festa.
domingo, 24 de junho de 2012
NÃO QUERO SER NIEMEYER
Eu nunca gostei de dormir na casa de outras pessoas.
Quando ainda era uma criança, naquela idade em que a
ideia de desbravar novos mundos era traduzida em dias de brincadeiras e noites
de sono na casa de coleguinhas, nunca me sentia bem diante da possibilidade de
me entregar a Morfeu em qualquer outro lugar que não fosse o meu quarto.
O cômodo amplo continha duas camas de solteiro que
eram unidas todas as noites e o espaço persistente entre elas preenchido por um
cobertor peludo e listrado em laranja, marrom, amarelo e vermelho. À direita meu
corpo, à esquerda o de minha irmã, Alline. Muitas noites, minha mãe se deitava
sobre o buraco coberto, nos fazia rezar e contava histórias cujos finais
delirantes me intrigavam e à Alline irritavam, quando esta atenta notava que
eram frutos do estágio avançado de sono em que a narradora se (des)encontrava.
Não havia mosquitos, nem barulho, só o vento gelado e
agradável do ar-condicionado, as várias camadas de colchas de piquet, os
travesseiros de pena e os narizes entupidos de vick-vaporub.
Era tão agradável o estado das coisas, que a menor
ideia de me faltar qualquer uma delas, era suficiente para me tirar o sono. O
primeiro bocejo na casa de alguma colega era o alerta de que era hora de ir
para casa.
Uma série de mudanças bruscas em minha vida me
conduziram, então, a um extremo antes inimaginável. Tornei-me nômade. Dos 16
aos 31 anos, troquei de casa dez vezes e, em poucos meses, deverei me
estabalecer naquele que será meu décimo-primeiro endereço. Mas, o nomadismo a
que me refiro, vai além da questão da residência. De apegada às mínimas coisas
que me cercavam na infância, tornei-me um indivíduo caótico, apaixonado,
instável e desasossegado. Foram tantas as camas diferentes, as amizades novas,
as separações familiares, os reencontros de alma, os mosquitos, o frio, o
calor, e as histórias, coerentes ou não, vividas e contadas por mim mesma, que
hoje eu só tenho o meu próprio eu como referência torta e ideia de lar, porque por
onde quer que eu ande, é sempre para mim que eu acabo por voltar. Não tolero
mais permanências e nem vick-vaporub.
Sou pouco afeita a decorações de ambientes. Em nenhum
dos trabalhos que tive, em salas de aulas e escritórios, cultivei o hábito de
manter porta-retratos e objetos pessoais. A ideia de ter que retirá-los quando
chegasse o momento de ir embora me perturbava. Tentei vencer essa
impessoalidade nos lugares em que vivi, mas a coisa toda saía desastrada e
incompleta, entregando esse estado de alma de “sempre pronta para partir”.
À medida em que este meu suposto desapego por
situações e lugares cresce, uma saudade infinita e colossal de tudo que eu vivi
às vezes aperta. O que torna pior essa nostalgia, é que ela é representada por rostos
e vozes, braços, pernas e sentimentos.
Não me importo com as mudanças de planos, caminhos e
sonhos. Não me importo mais com o desconforto do diferente. Mas, algo,
dolorosamente, permanece em mim. A necessidade de ter as pessoas que fazem
parte da minha vida, ao meu lado, em seus postos e condições, imutáveis,
presentes, reais. Jamais me acostumarei a perder pessoas. Do conforto de
encontrá-las, cumprimentá-las, abraçá-las, conversar com elas, nunca serei
capaz de abrir mão resignada. Não aceito ser abandonada. Penso que só a mim
caberia o direito de ir, nunca a possibilidade de ser deixada.
Só que o tempo não faz concessões e varre os
personagens da minha história sem pedir permissão. Levou-me os avós, a
professora de Biologia, alguns dos meus ídolos, o pai do homem que eu amo. E,
em alguns momentos, seu tic-tac infernal invade meus ouvidos, meu cérebro, meu
espírito, me despertando para a precariedade desta vida.
Há dois dias, atrasada
e sonolenta, eu jogava o corpo para dentro de um táxi, praguejando
contra a humanidade incompetente e preguiçosa que ainda não inventara o
teletransporte. No caminho para o trabalho, o taxista, e velho conhecido,
comenta a morte de um dos porteiros do meu prédio. Enquanto ele puxava o nome
em sua memória, eu vasculhava a minha, organizando imagens de homens por turnos
de trabalho. Em sincronia com a figura que eu visualizava, o nome pronunciado
pelo meu condutor: “Seu Edvaldo”.
Seu Edvaldo era o porteiro do dia e homem da
administração. Nunca soube ao certo a função que exercia, mas era ele quem me
acodia em momentos de dúvida sobre regras condominiais, nas confusões com
entregas da lavanderia e quem sempre autorizava, sem muita encrenca, meus
pedidos de livre-circulação de carros de amigos e parentes em minha vaga de
garagem. Mas, o que eu mais apreciava no Seu Edvaldo, era seu jeito atencioso
de cumprimentar cada uma das pessoas que passavam pelo portão do prédio. De
dentro da casinha de vidro, ele sempre acenava. Sua figura agradável me
confortava. Pequeno e entroncado, mulato, a carapinha cortada rente ao couro
cabeludo, um par de óculos e um blaser azul-marinho, são estes os substantivos
e adjetivos bastantes para caracterizar fisicamente o homem; no entanto, foi-se
a oportunidade e eu jamais saberei quais os adjetivos e substantivos
suficientes para descrever sua personalidade. O certo é que, Seu Edvaldo era
aquele cobertor listrado no meio da cama, o ar-condicionado potente, minha
oração diária. Seu Edvaldo era a referência, o ponto fixo, o conforto, em meio
a rotina estressante, caótica, impessoal. Podia tudo mudar, todos os dias, toda
hora, mas eu me reconheceria sempre no começo de cada dia, ao sair de casa e
avistar de longe o homenzinho que balançava a cabeça em retribuição ao meu
olhar.
Seu Edvaldo acordou bem cedo e foi preparar-se para o
trabalho, enquanto vestia o blaser marinho em um dos braços, foi tomado de
assalto por uma dor fulminante que lhe tirou a vida após render o coração. Ao
saber dos fatos, em solidariedade ao coração vitimado, o meu coração se apertou
e eu fui tomada de uma tristeza súbita ao me dar conta de todas as ausências
matinais que adviriam ao longo de cada um dos dias que ainda faltam para minha
nova mudança de lugar. Senti um pouco de raiva e de frustração. Não era para
ele ter ido. Era eu quem o iria abandonar. Como ele ousara? Pensei pesarosa na
família de Seu Edvaldo, nas duas filhas ainda muito jovens, mas, nessa horas,
sou egoísta demais para esquecer minha própria dor.
Após um longo dia de trabalho, retorno ao meu
apartamento em meio a algumas elocubrações que me davam esperança de que o
motorista que me deu a notícia tivesse se equivocado. A poucos passos do
portão de entrada, meu coração se acelera, e eu sigo aos saltos em direção à
ladeira que me permitiria ver a casinha de vidro no alto. Alguém me
cumprimenta. Eu trazia uma mala roxa de viagem – cuja presença na cena, vou me
permitir não justificar – que arremessei à minha frente, dei meia volta e em
pequenos trotes me dirigi à portaria. Sorriso de orelha à orelha. À minha
frente surge um homem muito alto, jovem e gordo. Fecho a cara, mas noto um
movimento dentro do lugar, tento avançar, mas o gigante me impede a passagem e
fica ansioso com a minha ausência de explicações. Começo a ficar impaciente e
pergunto:
- Quem tá aí?
O moço franze a testa e um outro se junta a ele,
saindo de dentro do lugar. Não consigo disfarçar a decepção:
- Mas, cadê o Seu Edvaldo?
Eles se entreolham surpresos, sem entender. O homem
grande abre a boca:
- Mas, ele faleceu... A senhora não viu o aviso no elevador?
Como uma criança, me desespero um pouco, aperto os
olhos e disparo, após bafejar:
- Eu sei, mas alguém me cumprimentou...E eu tinha a
esperança que não tivesse sido ele...que morreu...
Os dois homens vão da estupefação à indignação e, por
fim, às gargalhadas. Em uníssono rebatem:
- Então a senhora tinha esperança que tivesse sido um
de nós???
Um deles ainda rindo e contrariado:
- Deus do céu, antes ele do que eu!
Quis enfiar a cabeça de avestruz no buraco. Como pude
ser tão indelicada!? Quis explicar que a esperança do engano não era desejo de
desventura de outrem, mas faltou energia, vocabulário e, talvez, um pouco de
convicção.
Subi os cinco andares pensativa, triste e
envergonhada. Continuei assim por dias e concluí que não quero mais que ninguém
que eu conheça suma da minha vida. E não quero que minha vida dure tanto tempo
assim que isso se torne inevitável. Não, eu não quero ser Niemeyer.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
YES, NÓS TEMOS MAÇÃ
Em
uma ruazinha inclinada de paralelepípedos, na Glória – o bairro da zona sul carioca mais próximo da
região central, que jaz espremido entre os tradicionais bairros de Santa
Teresa, Lapa, Flamengo e Catete – observa-se, de um lado e outro, uma fileira
de casarões antigos, cuja imponência cedeu espaço à degradação. Janelas e
portões carcomidos pela ferrugem e as inúmeras pichações nos muros, por pouco
não impedem os transeuntes de adivinhar a persistente beleza das velhas
construções do lugar.
Entre
um casarão e outro, uma estreita passagem protegida por grades, deixa entrever
uma pequena vila ao fundo. Equilibrando-se em uma altíssima sandália
plataforma, uma mulher opulenta, vestida com uma calça preta costurada ao
corpo, camiseta regata amarelo-limão justa aos quadris e um pequeno top branco
coberto por lantejoulas prateadas e douradas, caminha lentamente e sem vontade
em direção à entrada. Após uma breve troca de cumprimentos, ela comenta
aborrecida que o motorista que a levaria a uma festa, que se iniciara às 14hs
na quadra de uma escola de samba, tivera
qualquer problema e não poderia buscá-la em casa. Tentaria contato com um outro
moço que ocasionalmente lhe prestava serviços de transporte, mas explicava que
não podia precisar quanto tempo demoraria até que ele chegasse. Nesse instante,
estabelecem-se os limites e o padrão de nosso relacionamento ao longo das dez
horas em que acompanhei Gracy Kelly, a mulher-maçã.
Evasiva,
Gracy Kelly diz “não” sem pronunciar a palavra. Deixou claro, sem abrir a boca,
que eu não poderia passar da área da calçada, mas educadamente postou-se junto
à parede da campainha onde demos início a uma conversa truncada, um tanto
superficial e cheia de pausas e interrupções, que se arrastaria até 1.30h da
manhã do dia seguinte.
Enquanto ela me passa a programação do
resto do dia, três meninas entre 7 e 8 anos, aproximam-se encantadas com a
moça, excitadas diante de tanto brilho e reconhecendo sua imagem dos programas
de televisão. Uma delas mostra-se bastante surpresa ao constatar que vivem
próximas: “Mulher-maçã, você mora aqui???” Duas das pequenas disputam sua
atenção, enchem a vizinha famosa de abraços, elogiam sua beleza, tocam as unhas
longas e desenhadas, os cabelos escovados, as pulseiras coloridas e, por fim,
pedem beijos e emprego. A terceira menina, mais tímida, apenas observa. Gracy
Kelly, desgastada pelo assédio, ao qual correspondeu com aparente doçura e
educação, pede licença para voltar à casa por alguns minutos e saber do
motorista que aguardávamos. As crianças se voltam para mim, dão início a uma
espécie de concurso e me exigem como juíza. Suspendendo as camisetas e
empinando os pequenos traseiros, passam a imitar, freneticamente, passos de
funk enquanto ansiosas aguardam meu veredicto sobre qual delas seria a
candidata ideal à colaboradora da Maçã. Constrangida com o espetáculo, suplico
que parem e as convenço a voltar pra casa, depois de mentir que Gracy Kelly
resolvera ir dormir e que eu mesma partiria em alguns instantes.
Após
minutos, Gracy Kelly retorna. Ao mesmo tempo
um carro estaciona e William, o motorista, abre a porta e nos
cumprimenta. No caminho, eu tento dar direção à conversa.
Antes
de deixarmos nosso ponto de encontro, a dançarina havia falado um pouco sobre
sua relação com o funk, gênero musical que a tornou conhecida. “Bem, música que a gente gosta é música que a
gente escuta em casa, né? Pergunta o que eu escuto! Gospel e MPB.” O som que
ela aprecia no dia a dia é bem diferente do batidão ritmado, de coreografia
sensual que ela executa em shows nos fins de semana.
Volto
ao assunto no carro, diante de uma Gracy Kelly frustrada. No caminho para Padre
Miguel, onde a presença da mulher-maçã é aguardada, passamos pelo aterro do
Flamengo, onde o seu estado de humor é justificado. Naquela tarde, o maior
evento de música religiosa já realizado no país reunia milhares de pessoas e a
dançarina ansiava se juntar a elas. “O que eu não posso fazer, tu podes. A
mudança que eu preciso, tu podes. O milagre que eu espero, tu podes. Senhor,
vem me socorrer. O meu milagre, Senhor, eu tomo posse. A cura que eu preciso,
eu tomo posse. A minha benção, Senhor, eu tomo posse. Abro as mãos para receber”, ela cantava, fechava os olhos,
implorava ao motorista que passasse mais próximo e devagar do lugar onde um
telão transmitia ao vivo Regis Danese, um dos expoentes da música gospel da
atualidade, e lamentava.
Toca
o telefone. O tom de voz sutilmente alterado e o jeito de falar de Gracy Kelly
denunciam o interlocutor. Um bom tempo de conversa, sem nomes, sem frases
longas, reafirmam sua habilidade de dizer sem verbalizar. Ela desliga e eu
aproveito a deixa, indagando sobre a existência de um namorado. Ela confirma e
se cala. Insisto no tema. A relação tem cerca de um ano, não há grandes
expectativas, ela gosta do rapaz, mas não tem planos de casamento. “Gosto dele,
mas não penso nisso. Vai demorar.” Disfarço a surpresa. A declaração, somada à
conversa que presenciei, em bom português, faz crer que releases não
muito antigos de sua assessoria sobre um suposto noivado com um ragazzo
italiano, repercutidos na mídia especializada em bisbilhotar a vida privada de
pessoas públicas, seriam material mais hábil a alimentar um romance do que
páginas de revistas e jornais.
Silêncio.
Me vem à mente um outro tópico. Há pouco, nova polêmica em torno da figura
curvilínea da Maçã gerou debates e deboches nos meios de comunicação. No
intuito de ampliar alguns contornos de seu corpo, a moça teria dado início a um
tratamento inusitado. Sua assessora, uma tia – conforme ela me confessara ainda
na saída de casa –, declarara aos quatro ventos que Gracy Kelly estaria se
submetendo a uma técnica tailandesa inovadora de aumento dos seios. Pasme-se: à
base de tapas na cara. Não resisto: “Doeu?” Ela conta que a experiência, apesar
de dolorida, fora gratificante. Questionei os resultados. Sem responder, ela me
dá um tapinha na mão, com a outra gira o dedo indicando adiamento da conversa e
aponta para o motorista. Insisto, num tom mais baixo: “Mas, onde eram os tapas
mesmo?” Ela confirma a tortura facial.
Pouco
antes do nosso encontro eu havia percorrido sites de busca curiosa sobre
o método sado-masoquista. De fato ele existia. Apenas um detalhe destoava da versão
que me fora narrada: os tapas eram distribuídos na região que se queria ver
aumentada. Tornei a olhá-la, das bochechas ao colo, do colo às bochechas,
tentando compreender o que havia se passado.
Chegamos
à quadra da Mocidade. Um prédio antigo, branco, cujas entradas estavam
protegidas por homens trajados nas cores da escola. Ao fundo, centenas de casas
simples, desorganizadamente dispostas. No entorno, barraquinhas vendendo
bebidas, cachorros-quentes e outras guloseimas de preparo duvidoso e certamente
pouco questionado pelas pequenas multidões em pé que faziam seus pedidos ou
sentadas degustando um dos itens do cardápio. O som do samba ecoava.
As
pessoas que liberariam a entrada de Gracy Kelly ainda não haviam chegado. Ela
se coloca junto aos guardiões do portão de entrada e começa a telefonar. Um de
seus anfitriões, do outro lado da linha, pede que ela aguarde sua chegada. Ela
desliga o telefone um pouco contrariada, um dos seguranças nota e pergunta quem
ela é. Mulher-maçã se apresenta como tal e completa: “sou musa da escola”. O
rapaz contrai o rosto e avisa que o presidente está chegando com a família,
como se pedisse um pouco mais de paciência. Ela confere as unhas, joga os
cabelos de um lado para o outro, puxa a camiseta amarela para baixo – ritual
recorrente ao longo das 10 horas que passei com ela –, lastima mais uma vez o
show gospel perdido e passa a brincar com a touch screen de seu Iphone.
O
aparelho remete a mais uma controvérsia na curta vida midiática de Gracy Kelly.
Steve Jobs, um dos fundadores da empresa de tecnologia Apple morreu de câncer.
No embalo das notícias que repercutiram o fato, a assessoria da dançarina fez
publicar uma nota onde ela chorava a morte de “Esteve”, o “inventor de grandes
modernidades”, e abusava da criatividade ao cogitar um vínculo entre o
reconhecimento da figura da moça no exterior e o sucesso dos empreendimentos de
Jobs.
Maçã
se orgulha de seus shows internacionais. Diz que visitou a Europa, países da
América do Sul e os Estados Unidos levando seu rebolado aos palcos de alguns
eventos e fazendo marmanjos ensandecidos gritarem: “Ah, eu tô maluco”. O bordão
é também letra – na íntegra! – de um
funk que ficou conhecido nos estádios de futebol em vários cantos do mundo, onde
times brasileiros e outros sul-americanos disputaram partidas.
Com
a chegada da família-chefe da escola de samba de Padre Miguel, nossa entrada é
autorizada e rapidamente chegamos ao camarote no primeiro andar do prédio, reservado para familiares e amigos
do presidente, convidados supostamente ilustres e figuras públicas mais ou
menos conhecidas. Ela aponta um banco verde, longo e alto, em formato zig-zag,
encostado na parede dos fundos do camarote, e se senta. “É o meu canto”.
Quieta, cumprimenta pessoas que passam por ela. Algumas pedem fotos. Ela
abraça, sorri. Abraça, sorri. Abraça, sorri.
Mecanicamente. Volta a sentar, e pergunto sobre seus pais.
Gracy
Kelly diz que é muito ligada à mãe, na casa de quem ela se encontrava nesses
dias. Não deixou muito claro se realmente morava com ela ou se estava de
passagem, apesar de mencionar uma segunda casa, da qual não deu pormenores. Em
um vídeo recente de um programa de televisão chamado “Quem convence ganha
mais”, Dona Dilma criticava a escolha profissional da filha, esta se defendia,
e cada uma delas, com seus argumentos, objetivava ganhar o apoio do público e
cerca de R$2.000,00 da produção. Intrigada, pedi que Gracy Kelly me contasse
sobre suas primeiras investidas e trajetória no universo dos bailes funk, da
televisão e da mídia da fofoca.
À
revelia de sua minibiografia no site wikipédia, que lhe atribui 1982
como ano de nascimento, Gracy afirma ter 27 anos de vida e 17 de carreira.
Nesses aproximados 6205 dias, teria ganhado concursos de beleza, atuado como
modelo em fotos e propagandas de televisão e se tornado uma das mais populares
dançarinas de funk carioca. A mãe tem sido apoio e companheira de jornada,
durante todo esse período. Gracy, no entanto, pontua: “Mas, eu sempre gostei
dessas coisas. Eu mesma me inscrevia nos concursos, desde pequena".
É
impressionante o início precoce da dançarina. Consideradas as 27 primaveras da
moça e seus 17 anos de trabalho, nota-se que ela já aos 10 anos buscava atrair
os holofotes. “Você começou cedo”, observo. Ela gira os olhos e retruca: “Ué, e
Sandy e Junior?”
Sobre
o pai, não fala muito. Comentou que ele mora nos Estados Unidos e restringiu-se
à linguagem corporal para sugerir que não são próximos.
Nossa
aproximação é suspensa pela chegada de William, o motorista, que discretamente
entrega à mulher-maçã o cartão de um senhor. Antes de enfiar na bolsa, me
encara com o papel entre as mãos e contorce o rosto em esgar intencional. Pouco
depois se levanta de seu lugar preferido e segue para uma mesa repleta de
mulheres, onde se põe a conversar.
Abandonada
ao lado de William, aproveito para dar início a um diálogo mais profícuo em
palavras do que os que tenho tentado manter nas últimas horas. O homem alto,
negro e forte, é gentil e tagarela. Em poucos minutos me narrou a vida em São
Paulo e a mudança para o Rio de Janeiro. Militar e músico da banda da
aeronáutica, após afastamento de suas funções se estabeleceu na cidade carioca.
Casado e pai de uma filha, para sustentar a família começou a trabalhar como
motorista, servindo executivos, jogadores de futebol e outras celebridades. Por
toda a noite, enquanto pequenos pedaços reluzentes de pano que imitam roupas
passavam pelo camarote, ele apontava e nomeava vários de seus clientes.
Vejo
Gracy Kelly circular pelo ambiente e meus olhos são mais uma vez hipnotizados
pelo seu derriére. A curiosidade feminina é aguçada pela maledicência do
pequeno demônio ao meu ouvido. Inúmeras vezes a moça sustentou em entrevistas
que é natural sua exuberância, mas a visão à minha frente e uma dose de
leviandade me impedem de aceitar o fato.
Ela
torna a sentar. Blasé, anuncia um convite recebido para madrinha de
bateria de uma outra tradicional escola de samba e me pergunta em que grupo
eles estão. Afirmo desconhecer e ela dá de ombros. De repente, esclarece que
não aprecia muito o carnaval e que aceitar convites de escolas para desfilar
seria algo como uma troca de gentilezas, algo que faz por gostarem dela. Anoto
mais um item na inverossímil lista de desprazeres de Gracy Kelly, a qual inclui praia e baladas.
Com
o cair da noite, estrelas brilham no céu, enquanto pessoas vestidas e travestidas brilham nos camarotes e na quadra da Mocidade
Independente de Padre Miguel. O celular da musa cuja escola de samba em 2012
renderá homenagem a Cândido Portinari não para de tocar. É o namorado que liga
pela enésima vez. Ela torna a repetir onde está e lembra que a bateria do
aparelho está acabando. Nesse momento tenho um vislumbre de uma Gracy Kelly
mais voluntariosa. Ela determina ao moço que este deve voltar para casa, ainda que esteja ela mesma várias horas
atrasada em relação ao momento marcado para o encontro dos dois, estabelecido
na primeira da série de ligações. O comportamento caprichoso da moça se
manifesta em pelo menos duas outras ocasiões.
Logo
mais ocorreria a coroação da rainha de bateria, uma atriz, esposa de um
conhecido diretor de televisão. O camarote que à tarde estava praticamente
vazio, com o passar do tempo é tomado por uma multidão de convidados,
fotógrafos e jornalistas. Um grupo de organizadores do desfile se aproxima e um
deles resolve tratar de alguns detalhes com a mulher-maçã. Avisa sobre um
ensaio técnico agendado para o dia seguinte e informa que Gracy deverá desfilar
sobre um carro alegórico, já que o número certo de musas ao chão já havia sido
definido.
Demonstrando,
mais uma vez, o temperamento tenaz, ela terminantemente recusa a posição: “Não
dá para sambar”. Argumenta com polidez, mas transpira contrariedade. Quando o
rapaz se afasta, mais uma vez queixa-se do concerto religioso perdido.
Câmeras
a postos, a atmosfera do lugar muda. Esses objetos se traduzem em verdadeiros
portais para o mundo encantado das matérias em jornais, revistas e páginas da
internet, e boa parte dos ali presentes disputa passaportes. Não só roupas e sapatos
chamam a atenção. A partir desse momento, os mais largos sorrisos se abrem,
todos se adoram, os olhos se agitam, pessoas se abraçam, param para fotos em
trejeitos ensaiados que simulam poses de passistas durante desfiles de
carnaval.
Nesse
contexto, as fronteiras bem definidas que separam celebridades em classes são
rompidas e por alguns minutos a ex-namorada do ex-jogador de futebol se torna
pessoa próxima da moça que está todas as semanas em um programa de mexericos de
um canal de televisão, e esta, por sua vez, é a melhor amiga do diretor de
novelas que está ali acompanhando a mulher.
Entre
uma pausa e outra dos flashes, as moças correm ao banheiro para retocar
a maquiagem, acertar os pequenos vestidos, recolher paetês caídos e disfarçar
tecidos descosturados. Toda aquela vida observada momentos atrás se esvai, e as
pessoas voltam a circular indiferentes. Até que o fotógrafo de uma revista
famosa faz o convite, como se erguesse uma taça indicando o recomeço da festa,
e todos reencarnam seus papéis.
Seguindo
o modus operandi dos demais, Gracy Kelly levanta graciosa e, cortês,
cumprimenta um a um os presentes e se deixa fotografar. A despeito da simpatia,
ela está desconfortável. Ciente da coroação da rainha naquela noite, ela havia
optado por um dress-code mais recatado do que aquele a que está
acostumada a recorrer em eventos dessa natureza. “Em um casamento as madrinhas
não devem ofuscar a noiva”. A contragosto, observou que as outras musas não
conheciam ou não se importavam com a tal regra de etiqueta.
Saio
de meu ponto de observação para olhar o palco, no caminho esbarro em Gracy
Kelly e experiencio sua segunda manifestação de capricho. Ela me pede fotos com
o diretor de TV, mas determina que eu devo avisá-lo. A timidez e o embaraço me
impedem de dar um passo à frente e recebo um cutucão no ombro e uma careta.
Passo por um momento de perplexidade, mas sigo adiante. Em frente ao homem,
estaciono. Dezenas de pessoas se amontoam junto a ele. Evito a linha de tiro
dos fotógrafos. Um apertão no braço e um “vai logo” me indicam a passagem do
tempo. Com um meio sorriso peço para
fotografar e em segundos a dançarina está ao lado do diretor. São três cliques
ligeiros e ela desaparece em meio às pessoas, depois de se certificar do
enquadramento das fotos.
Quase
duas da manhã, percebo que mais uma vez ela me disse “não” sem mover os lábios.
No começo da tarde, o plano era: duas
horas de presença na quadra e uma entrevista em algum lugar mais tranquilo.
Entre tantas questões preparadas, uma em especial seria o ponto alto deste
perfil.
Em
novembro deste ano, uma escritora árabe pós-feminista, Joumana Haddad, esteve
no Brasil durante uma Festa Literária e fez uma comparação curiosa. “Mulheres
de burca e mulheres-frutas são o mesmo, ambas são oprimidas pelo
patriarcalismo”.
Meu
intuito era contar isso à mulher-maçã e ouvir sua opinião. Ela não quis. E eu,
fui oprimida por sua voluntariedade.
*Texto feito entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Apna dil tum may hay: Meu coração está com você
“Ninguém consegue permanecer indiferente ao Paquistão. É
como um divisor de águas: de um jeito ou de outro. Ou estrangeiros o rejeitam
de pronto: sem casas noturnas, sem danças, sem diversão; mulheres são
dificilmente vistas nas ruas, sem sorrisos; ou o Paquistão os domina e se torna
um fator para o resto de suas vidas.
O Paquistão é um país de extremos. Tem as montanhas mais
altas e os mares mais profundos. Tem as planícies mais férteis e os maiores
desertos. Nele existem paisagens de aparente esterelidade lunar de onde vêm as
frutas mais suculentas. Há neve, e 150 dias de calor ininterrupto por ano.
Conhece os Sete anos de Seca – assim como as enchentes das monções que inundam
milhares de vilas todos os verões. É casa de uma massa cada vez maior de
famintos, assim como desses que são – ou tem se tornado – excessivamente ricos;
os maiores materialistas próximos aos mais devotos, almas místicas aos montes.
Pode mostrar a face da imensa tolerância e, no minuto seguinte, a careta do
ódio mortal. Possui os mais estritos código de honra e regras religiosas e
comete os mais hediondos crimes.
Não é um país para “pesos leves”. Pense nas majestosas
montanhas do Himalaia sobre cujos pés o país se espalha: este é o ânimo. Mesmo
a sua beleza é solene e poderosa.” (Karin Mittmann & Zafar Ihsan)
Talvez um complexo, daqueles estudados pelo pai da
psicanálise e seus discípulos, possa explicar a origem da tamanha fascinação,
que vi despertada na infância, por países longínquos e esquerdos, de idiomas
vasconços e de culturas tão herméticas quanto inusitadas.
Cresci apaixonada pelo meu
pai, por seu caráter, por sua inteligência e por sua generosidade. O fato de o
homem nunca ter saído do país não impediu que sua mente viajasse através da
literatura, da música e do cinema. Não é preciso sair de seu mundo para
aprender a tolerância. Por mais que conhecer lugares novos seja “fatal para preconceitos, para o fanatismo e
para mentes estreitas” (Mark Twain), algumas pessoas se tornam capazes de
compreender o outro através do mero exercício do auto-conhecimento e da
compaixão.
Na ânsia de me fazer amada, e especial em meio a tantos
filhos, observava atentamente suas ações, absorvia tudo o quanto dizia,
estudava suas atitudes e interesses, e buscava reproduzir seu comportamento. O
maior dos prazeres era ter meu esforço reconhecido, não só pelo meu pai, mas por
todos os que nos cercavam. Nesses momentos, eu era realmente filha dele.
Espiritualizado, lia avidamente sobre culturas orientais
e suas práticas. Foi através de suas palavras e de seus livros que conheci o
Japão budista, a Índia hindu de Gandhi, os monges tibetanos, técnicas de
meditação e yoga, e tantos outros personagens e elementos característicos do
leste do mundo. Foi ainda na infância que tracei o plano: tão logo me tornasse
adulta e ganhasse meu próprio dinheiro, levaria meu pai em uma viagem só nossa
pelo Oriente. Iríamos ao Nepal, meditar em uma daquelas cavernas nas montanhas,
descritas nos livros que ele guardava.
Os anos passaram, e a paixão que eu sentia por aquele homem
se transformou em amor. Superei algumas de minhas visões tipicamente freudianas
sobre a relação pai e filha, vislumbrei sua humanidade, e deixei que a ideia
infantil da viagem em conjunto se transformasse em uma doce lembrança. Somente
algo permaneceu imutável, a curiosidade que meu pai ajudou a despertar pelo
diferente.
Ele jamais saiu do Brasil, e hoje tenho dúvidas se algum
dia o fará, entre as alegações, falta de tempo e condições financeiras, mas
creio mais em um misto de receio e desinteresse. Ele há muito se satisfaz com a
narração dos filhos, que vez ou outra vão pelo mundo, provocados pela abertura
de mente que ele nos proporcionou quando crianças.
Austrália:
Meus primeiros Paquistaneses
Em meados de 2001, aos vinte anos de idade, pelo telefone,
recebo um convite.
Estava em Sydney,
Austrália, havia cerca de um mês. Ainda desbravava o lugar e não conhecia
muitas pessoas além daquelas que ajudaram no processo de instalação da minha
família no país. Minhas aulas não haviam começado e me sentia entediada e
insegura em casa, enquanto meu padrasto trabalhava – ele fora transferido por
dois anos para uma filial de sua empresa em Sydney – e minha mãe fazia do
apartamento que vivíamos um lar. Navegando na internet, buscava brasileiros com
os quais pudesse me comunicar, e que estivessem por lá. Queria amigos. Sair
sozinha não era uma opção. Curiosamente não encontrei de pronto compatriotas,
mas um rapaz abriu em minha tela de computador uma janela de conversa. Falamos
brevemente, hoje já não me recordo mais o que, mas lembro que insistiu para que
eu lhe desse meu número de telefone. Não fosse o tédio e a curiosidade, eu
teria seguido as regras de segurança que ditam jamais relatar a um estranho
qualquer informação pessoal.
O moço se chamava Tanvir,
soava gentil e educado, era engraçado e me chamou para sair. Antes da negativa
– dar o número de telefone já havia sido um excesso de minha parte –, me senti
compelida a perguntar-lhe a origem. Na Austrália, um país mais jovem que o
Brasil, todos são imigrantes. Ele respondeu: “Nepalês.”
Às 20h de um sábado, Tanvir
tocava a campainha do meu apartamento e pedia permissão à minha mãe e padrasto
para me levar para jantar. A situação toda era esquisita e anacrônica. Apesar
de jovem, era adulta e estava acostumada a apenas comunicar à família os
lugares a que estava indo e, algumas vezes, com quem estava indo, prescindindo
da autorização ou não dos meus pais. Mas, havia a singularidade da situação:
estava em outro país, saindo só pela primeira vez, com uma pessoa que não
conhecia e que se dizia nepalês. Minha mãe, que nunca se interessara pelos
livros do meu pai, contorcia o rosto um tanto desesperada quando me
questionava: “Mas o que é um nepalês?”
Na verdade, eu mesma sabia muito pouco sobre o que era
ser um nepalês. Não mais do que havia lido em livros sobre meditação e revistas
de viagens. Até então, imaginava que Nepal e Tibete fossem uma coisa só. Assim,
era difícil explicar pra minha mãe o que era aquele rapaz pequeno, de olhos
amendoados, olheiras profundas, dedos afilados, cabelos lisos e negros e pele
azeitonada. Só mais tarde, bem mais tarde, eu pude dizer quem e o que ele era.
Tanvir se tornou meu melhor amigo durante minha vida de
expatriada. Era doce e delicado, engraçado e cheio de segredos. Muitos anos
depois, quando já havíamos perdido contato, descobri que não era nepalês, era
na realidade bengali. Nunca entendi ao certo suas razões para a mentira, mas
especulo que tenha qualquer coisa de intuitiva sua resposta no dia que primeiro
nos falamos por telefone. Talvez tivesse sido honesto em relação à sua origem e
não tívessemos nos tornado tão próximos. Ele me disse o que eu queria ouvir
para poder me oferecer o que eu precisava, amizade. É assim que vejo hoje a
questão.
Sydney tem uma boa parte de sua população composta por
asiáticos, que migraram em massa para a Austrália por volta dos anos 70. São
chineses, japoneses, indianos, paquistaneses, bengalis, entre outras
nacionalidades.
Em minhas aulas de inglês, éramos uma brasileira e 11
sul-coreanos. Durante os intervalos eu escutava as conversas, presenciava as
confraternizações, enquanto tentava fazer a leitura corporal dos meus colegas e
entender minimamente o que se passava. Uma das coreanas se tornou minha amiga.
O nome, impronunciável, cedeu lugar ao apelido inglês Sunny, “Ensolarada” em
português. O substantivo-adjetivo dizia muito sobre a menina pequena de olhos
puxados. O pai havia ficado na Coreia do Sul e de lá providenciava o sustento
dela, da mãe e da irmã, que tentavam se ajustar sozinhas a um novo país, de
cultura e língua bastante complicadas para elas. Apesar das dificuldades
rotineiras, Sunny era alegre e otimista. O sotaque carregado e as dificuldades
em pronunciar palavras para as quais a musculatura dos lábios e da língua não
havia sido trabalhada, faziam nossos momentos juntas oscilarem entre a diversão
e a frustração. Às vezes, passávamos longos minutos tentando nos decifrar e
muitas vezes, sem falar palavra, sorríamos cúmplices ao compartilhar um mesmo
pensamento.
Meses após minha chegada à Austrália, Sunny me liga
contando uma novidade, estava namorando um rapaz e queria muito que eu o
conhecesse. Combinamos uma tarde à beira da baía, na região portuária de
Paddington, em frente à uma famosa barraca de tortas apimentadas de carne. Fui
encontrar o casal na companhia de Tanvir. Sentados na calçada, com as pernas
balançando sobre as águas, conversávamos enquanto o sol partia. O namorado
novato faz então um comentário, marcando aquele momento: “Vocês se deram conta
de que somos todos diferentes? Um libanês, uma coreana, um nepalês (bengali) e
uma brasileira, juntos aqui!?” Não tenho lembrança das palavras exatas usadas
por ele, mas a questão era essa, mais ou menos solenemente apresentada. E ao
tomar consciência da verdade do que ele dizia fui invadida por imensa sensação
de prazer, que se repetiu ao longo dos anos em cada vez que entrei em contato
com uma cultura, uma língua, uma religião ou um modo de pensar diverso.
Durante todo o período que permaneci em Sydney, Tanvir
foi meu companheiro. Através dele conheci realidades as mais diversas da minha
e me abri para a compreensão de mundos além do meu. Acompanhei seu sofrimento
quando do ataque em 11 de setembro, mas por conta de suas omissões e da minha
visão limitada dos fatos, não entendi em sua totalidade o significado daquele turning point na vida dele e de milhões
de pessoas ao redor do mundo. Como mais tarde descobri, Tanvir que não era
nepalês – até hoje não sei se algum dos seus familiares o era – , havia nascido
em Bangladesh. Seu país, após a partilha da Índia, passou a se chamar Paquistão
Oriental, de população majoritariamente muçulmana e, mais tarde, tornou-se
independente, assumindo nome próprio. Após a queda das torres, viu-se crescer o
sentimento islamofóbico ao redor do mundo, mais ou menos justificado pela morte
dos milhares de inocentes vitimados no atentado. Por conta disso, ainda outros
inocentes passaram a sofrer em decorrência do ato fundamentalista. Os próprios
muçulmanos, uma imensa massa de gente que nenhuma relação guardava com o ato
extremo, passaram a ser vistos sob suspeita e a enfrentar o rancor de boa parte
da população mundial.
Entre tantas novidades e descobertas, passei mais ou
menos alheia pelos eventos que punham o mundo em turbulência naquele período.
Na mesma época, em um passeio pela praia, vislumbrei do carro um grupo de
pessoas vestidas de branco dos pés à cabeça. O que trajavam se assemelhava a um
pijama, enquanto que na cabeça traziam um pequeno chapéu ajustado ao crânio.
Falavam alto, uma língua dura e difícil. Fiquei bastante impressionada e Tanvir
me explicou que eram paquistaneses. Imediatamente os associei à imagem
recorrente na mídia, após o 11 de Setembro, do velho barbudo e diabólico, e
tive medo.
Brasil:
Mulheres que amam Paquistaneses
Alguns anos mais tarde, já de volta ao Brasil e à rotina
de estudos e trabalho, passei a pesquisar continuamente sobre países asiáticos.
Minha lista de contatos em redes sociais só crescia em função do número de
pessoas das mais variadas origens que eram pouco a pouco adicionadas. Gente da
Índia, Singapura, da Turquia, Indonésia e Paquistão.
Minhas manhãs de sábado eram passadas em conversas com um
paquistanês de Lahore, a capital da província paquistanesa de Punjab. Com ele
aprendi um monte de coisas sobre o país, sobre a cultura e modo de vida
paquistaneses. Aos poucos, a associação entre o terrorista Bin Laden e os
homens de branco que eu havia visto na praia australiana ia se desvanecendo.
As diferenças culturais e religiosas me intrigavam.
Islamismo, Ramadã, gerações de uma mesma família morando juntas, casamento
arranjado, abstinência sexual e alcóolica, comida halal, mulheres cobertas,
poligamia, eram temas recorrentes e controversos que me custavam horas de
debate com o amigo lahori. Enquanto eu me esforçava para entender casamentos
realizados sem paixão e sem amor, ele se recusava a aceitar minhas
justificativas para o grande número de divórcios deste lado do mundo. Enquanto
eu desdenhava de seus programas de fim de semana: pepsi-cola com amigos, homens,
em saguões de hotel; ele eriçava os cabelos diante das minhas narrativas de
baladas com amigos, homens e mulheres, sempre, ao fim, assumindo o compromisso
de rezar pela minha alma para que minha escala no inferno não fosse duradoura a
ponto de comprometer minha felicidade eterna.
No segundo semestre de 2008, decidi sair de férias. Uma
das minhas melhores amigas havia casado há um ano e estava morando nos Emirados
Árabes, em Dubai. Sem objetivos definidos, me convenci a ir visitá-la. Quando
contei a novidade ao amigo paquistanês, fui logo intimada a estender meus
planos e passar alguns dias em Lahore, para nos encontrarmos e ele poder me
mostrar in loco um pouco de tudo
aquilo que há anos ele me apresentava. Obviamente ri do convite, afinal, sempre
fui aventureira, mas não suicida. Naquele ano o Paquistão estava em polvorosa,
forças contrárias tentavam derrubar o ditador no poder, enquanto homens e
bombas explodiam por todo o país matando centenas de pessoas em retaliação à
política do governo autocrático, de apoio irrestrito aos norteamericanos em sua
“guerra ao terror”.
Declinei do convite, para a tristeza do meu amigo, mas
fiquei inquieta. Alguns dias pensando e concluí que realmente queria ir até lá,
imaginando se haveria algum modo seguro de fazê-lo. A oportunidade era ideal.
Lahore ficava a apenas três horas de voo de Dubai e eu teria tempo suficiente
para me dividir entre os dois lugares se eu quisesse.
Diante da nova possibilidade, comecei a investigar
maneiras de chegar ao Paquistão e poder circular com relativa segurança. E me
questionava se haveria brasileiros no país com os quais eu pudesse me comunicar
e buscar mais informações. Para meu choque e surpresa, localizei um número
razoável de pessoas, todas elas mulheres, brasileiras, em relacionamentos com
homens paquistaneses. Um grupo heterogêneo de moças cujo ponto em comum era a
origem de seus maridos e namorados. Aproximei-me de Cintia, que morava em
Lahore com o marido e estava grávida da primeira filha. A curitibana,
descendente de japoneses, havia conhecido o paquistanês pela internet, se
apaixonara e abandonara a vida estável no Japão para viver o amor em outra
terra estrangeira.
Dubai
(2008): Contagem Regressiva
Aterrissei em Dubai fim de outubro de 2008. O ar quente e
denso à porta da aeronave entregava o imenso deserto a partir do qual se
erguera o rico emirado. O alívio após longas horas de voo sobrepujou o cansaço
e eu competia em sorrisos com a amiga querida que me aguardava no desembarque. A
mulherzinha baixa e de voz estridente, acostumada ao controle daqueles a quem
tinha afeto, apontava o dedo e rosnava, amaldiçoando meus planos de ir ao país
vizinho.
Superexcitada
pelas luzes e imagens ao meu redor, eu mal percebia suas feições e os sons das
palavras. Homens robustos e morenos, com caras de poucos amigos, metidos em
vestidos brancos, andavam agitados. O adereço da cabeça me remetia às paginas
dos cadernos de política internacional e programas de TV onde havia visto
imagens do antigo líder palestino Yasser Arafat. Mulheres de sobrancelhas
longas e bem marcadas, olhos delineados e perfil encantador, vestidas em trajes
negros que lhes cobriam todo o corpo também circulavam pelo ambiente, como
contraponto ao colorido das vestes indianas e paquistanesas espalhadas em
pequenas aglomerações por toda a área do terminal aeroportuário.
Do estacionamento do aeroporto à casa da minha amiga,
somente alguns minutos. E os dias voaram até a semana em que eu própria voaria
novamente. Nesse meio tempo, programações turísticas em Dubai, pragas de amigos
brasileiros, promessas de deserdação por parte da minha mãe e um princípio de
pânico frente aos ataques que se intensificavam no Paquistão. Ninguém queria
que eu fosse até lá, meu amigo paquistanês começava a se preocupar e o meu bom
senso já se encontrava em estado de alerta.
Cerca de um mês antes da minha viagem, terroristas
tentaram ultrapassar a portaria de um dos maiores hotéis de Islamabad, a
capital federal do país, dirigindo um caminhão-bomba. Bloqueados na entrada,
explodiram em frente ao lugar, matando cerca de 60 pessoas, ferindo 200 e
destruindo toda a fachada.
Ciente dos perigos que corria, tentei minimizar os
riscos. Pedi à nova amiga, Cintia, que localizasse em Lahore um hotel pequeno
em área segura, para que eu pudesse me hospedar, desconhecido e irrelevante o
suficiente para pretensos terroristas.
A dois dias da partida para Lahore, agendei um encontro
com Umair, o marido de Cintia, que coincidentemente se encontrava em Dubai.
Pretendia resolver um problema burocrático de vistos que poderia impedir a
minha ida ao Paquistão, ou meu retorno posterior aos Emirados. Ele conhecia os
trâmites para a regularização da minha situação e iria me ajudar. Marcamos em
um café, numa área em Dubai que é comparada por brasileiros à rua paulista “25
de março”.
Às 9h da manhã
do dia acordado, sob protestos da minha anfitriã temerosa pelo meu encontro com
um “desconhecido”, me dirigi ao lugar combinado, tomando o cuidado de ir
trajada conforme as determinações da religião islâmica: um longo vestido
marrom, ignorando o calor de quase 40 graus, um cardigã bege, e longo xále da
mesma cor cobrindo braços e colo. Dois homens me aguardavam. O primeiro alto,
jovem e magro; o segundo, mais baixo, mais velho e gordo. Ambos de pele escura
e os olhos negros afundados em olheiras. Quando olharam em minha direção, sorri
e acenei. Nos cumprimentamos com um movimento de cabeça, sem beijos, apertos de
mão, ou qualquer outro contato físico a que ocidentais, em particular latinos,
estão tão acostumados. Entramos em um carro, os dois na frente eu no banco de
trás e seguimos em direção a Sharjah, um dos outros sete emirados que compõem o
país, irmão mais pobre e desprovido de beleza quando comparado a Dubai.
Rodamos deserto
adentro, com pequenas paradas pelo caminho, em terrenos baldios não tão
baldios. Filas de tratores e homens ocupavam pequenas e médias áreas muradas de
areia. Os últimos, em sua maioria, tinham a pele curtida pelo sol; os velhos
usavam turbantes grossos e encardidos cobrindo as cabeças e muitos dos mais
jovens uma espécie de saia, sarong, semelhante às “cangas” usadas por
brasileiras na praia.
Umair, o homem
jovem e alto, então se dirigiu a mim e explicou: ele e o homem gordo, seu
cunhado, tinham uma empresa na área de construção em Dubai. Negociavam máquinas
e mão-de-obra com empreiteiros da Europa, dos Estados Unidos e do Oriente
Médio. Enquanto seguia para a casa deles, como convidada para o almoço e
jantar, parávamos de tempos em tempos pelo deserto, para que eles cuidassem do
seu comércio.
Quando
finalmente chegamos em Sharjah, já estávamos há quase duas horas em
deslocamento. Não é um lugar feio, mas muito mais simples e conservador que
Dubai. A tolerância aos hábitos ocidentais é menor, não é comumente frequentado
por turistas, as roupas são mais largas e mais longas e veem-se menos mulheres
nas ruas.
Observando as
ruas de Sharjah, percebi uma grande concentração de asiáticos. É para esse
emirado que migram paquistaneses, indianos, filipinos, indonésios, malaios e
tantos outros que trabalham no setor de serviços em Dubai. Viver em Sharjah é
mais barato, e regras mais conservadoras garantem a paz de espírito
eventualmente perturbada no contato diário com os ocidentais.
Eu já me sentia
livre da apreensão que me acompanhara por todo o caminho e já considerava Umair
e Musharraf dois grandes amigos. Antes de chegar em casa, fomos a um shopping
local para comprarmos o almoço da família. De lá percorremos menos de um
quilômetro por vias arenosas – em Sharjah só há pavimentação nas áreas centrais
– e estacionamos em frente a um prédio antigo, de três andares, sem portas e
elevadores. Subimos alguns lances de escada e paramos em um andar onde duas ou
três portas abertas, lado a lado, permitiam ver pequenos apartamentos. Um deles
era de Musharraf e Sadia, cunhado e irmã de Umair.
Na pequena
sala, uma menina por volta dos seus oito anos se inclinava sobre um dos braços
do sofá, enquanto um velho de barba longa e laranja segurava um livro negro e
grosso e se dirigia a ela. Não tive tempo de ensejar um cumprimento, Umair me
arrastou para o único quarto da habitação e pediu que aguardasse até segunda
ordem, fechando a porta. Fiquei desconfortável, mas logo Sadia entrou e
explicou que sua filha estava tendo aulas religiosas na sala, pediu com
gentileza que eu aguardasse que logo iríamos almoçar.
Meia hora
depois eles me colocavam à mesa. Não havia jantado na noite anterior, nem
tomado café pela manhã. Acreditando piamente que meu corpo estava em processo
de autofagia, foi com prazer glutônico que encarei o sanduíche e as batatas
fritas à minha frente. Sem muita discrição e nenhuma delicadeza, avancei sobre
os pratos, quando fui tomada por uma sensação desagradável de que estava sendo
observada. Levantei os olhos da comida e fui surpreendida por uma câmera
digital me focalizando e paralisei. Diante de minha confusão, uma Sadia
envergonhada justificou: “minha mãe estava curiosa para ver a visita, então, se
você não se incomoda, ela pode observar enquanto você come?”
Acenei para a
câmera e constrangida finalizei a refeição. Depois fui à frente do computador
ver quem era que me espiava. Do Paquistão, uma matrona simpática, envolta em
véus coloridos, sorria de orelha a orelha diante da estrangeira comilona. Em um
inglês incompreensível, traduzido pelos filhos, dizia que me aguardava no país
e que eu era bem-vinda em sua casa.
Uma criança
minúscula passa correndo pelo quarto, emitindo grunhidos ligeiros que só a mãe
compreendia. Chorava e mostrava os dedos de alfinete. As vizinhas indianas
comemoravam o Diwali, uma festa religiosa hindu, também chamada de Festival das
Luzes. Em celebração, acenderam velas por todo o apartamento e no hall de
entrada. A pequena arteira, curiosa por conta da iluminação, tocou o fogo,
queimando as mãozinhas. Sadia mencionou o fato e me arrastou para conhecer as
amigas. Ignorando a sangrenta partilha ocorrida no território indiano há mais
de 60 anos e que até hoje produz frutos de discórdia entre os povos da Índia e
do Paquistão, ela sentou confortavelmente entre duas jovens hindus e se pôs a
tagarelar. Uma mulher mais velha foi até a cozinha e voltou com uma bandeja de
biscoitos em formato de estrela e copos cheios de um líquido cor-de-rosa. Fui
instada a provar os biscoitos e aquilo que julguei ser leite e morango em pó.
Ao virar o copo, dezenas de macarrões transparentes inundaram minha boca e o
líquido perfumado irritou minha língua. Tentando disfarçar a repulsa, empurrava
com os dedos os macarrõezinhos pendurados nos lábios de volta ao copo, enquanto
com esforço engolia os que estavam na boca, sem mastigá-los. Sadia percebeu meu
embaraço e me resgatou, tirou o copo das minhas mãos e avisou que tínhamos que
ir. Rindo no caminho pelo corredor, confessou: “Também não gosto muito de leite
de rosas.” Fiquei chocada diante da constatação de que as indianas bebiam
cosméticos – mais tarde descobri que não se tratava do mesmo leite de rosas
industrializado, e sim de água literalmente extraída de rosas e depois
adicionada ao leite para dar sabor – e quis saber dos macarrões. Chamados de
faluda, são feitos de gelatina e comumente utilizado em doces populares no
subcontinente indiano.
![]() |
| eu e a pequena dos dedinhos de alfinete |
A tarde já
avançava quando pedi a Umair que me levasse a uma lan-house. Precisava verificar alguns emails. O dia estava quente e
eu transpirava sob os inúmeros panos que me cobriam. Para meu alívio, entramos
em uma lojinha com ar-condicionado. Um ambiente notadamente masculino, onde
minha chegada causou curiosidade e algum desconforto. Umair me apontou uma
cabine mais reservada e distante dos grupos de homens e sentou próximo ao
computador ao lado do meu. Passei a ler e responder emails, quando ouvi o
ar-condicionado desligar. Longos minutos se passaram e o calor começou a me
angustiar, e novamente o barulho do ar-condicionado. Alívio. Mais alguns
minutos, e o ar-condicionado para de funcionar. Tempos depois, a volta do ar
frio. Logo após, novo desligamento. Quando me dei conta do “liga e desliga”,
comentei com o Umair que o aparelho deveria estar com algum problema. Ele
gargalhou ao me explicar que era tão-somente o dono do estabelecimento tentando
economizar energia elétrica. Advindas de países como a Índia e o Paquistão,
onde energia elétrica contínua é um bem raro e caro, algumas pessoas tinham
desenvolvido estratégias próprias de racionamento de eletricidade e economia.
Da lan-house fomos a um café ao lado de uma
mesquita em Ajman, um terceiro emirado. Enquanto tomávamos chá e fumávamos
shisha, um costume local, Umair me falava da situação política no Paquistão. De
uma família socialmente ativa no país, Umair teve dois irmãos assassinados em
disputas de poder. Vinculado ao PPP – Pakistan People´s Party ou Partido do
Povo Paquistanês – era o próximo Malik a tentar posição política na província
Punjabi.
Fomos
interrompidos pela chegada de Sadia e Musharraf com as filhas, com quem nos
dirigimos a um mercado indiano e depois a um restaurante libanês. No cair da
noite, fui devolvida à casa da minha amiga, que a essa altura me mandava por
celular a centésima mensagem ameaçando contatar a embaixada. Feliz e grata, me
despedi da família com a promessa deles de resolver minhas questões de visto e
com a promessa minha de confortar a matriarca que me aguardava em Lahore.
Paquistão
(2008): Meu coração está com você
Se o purgatório é quente, o inferno é escaldante. Depois
de uma aterrissagem estressante – paquistaneses em um voo são como crianças:
não escutam ordens, fazem o contrário daquilo que lhes é solicitado, são ansiosos
e sem noção de perigo – pôr os pés naquele chão e sentir o ar escandalosamente
quente e seco do Paquistão foi de um prazer indescritível. Abraçar a nova amiga
e sua sogra “big brother” e tagarelar ininterruptamente no caminho para o hotel
me fez esquecer que eram 4h da manhã e que eu estava exausta após 21 horas em
atividade.
Atendendo meus pedidos, Cintia reservou um pequeno hotel,
bem localizado. O prédio era novo e simples. Apenas 3 ou 4 andares, frente
envidraçada e decoração agradável. Dois atendentes homens estavam na recepção,
preenchi os papéis e fomos levadas ao que seria o meu quarto. O quarto era bem
espaçoso, duas camas de solteiro enormes, chão encarpetado, uma penteadeira de
madeira, um sofá e criados-mudos completavam a mobília. Eu já tinha ouvido
falar da falta de asseio nos hotéis, restaurantes, mercados e em áreas de
circulação pública no país, mas nada me preparara para aquilo. Quilos de poeira
pelos móveis e em suspensão no ar. Toalhas e lençóis sujos e todos os cigarros
do mundo apagados em cinzeiros pelo quarto. Antes que eu me pusesse desesperada,
a sogra da Cintia saiu do quarto em direção à recepção, onde reclamava em duro
e incompreensível urdu, a língua do Paquistão. Eu não podia distinguir se ela
só falava ou brigava. Certo é que, em poucos minutos, minha bagagem foi
retirada do quarto e fui levada a um outro, cuja única diferença era a ausência
de cinzeiros com cigarros. A Sra. Malik, a sogra, sorriu satisfeita e eu me
resignei frente ao fato. Abrimos as malas e eu entreguei à Cintia e à sogra
presentes e comida. Às 5h da manhã, elas me deixaram.
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| quarto do hotel |
Tranquei a porta, cobri
minha cama com xáles, tirei o travesseiro da mochila e resolvi descansar - em
quatro horas estaria de pé para um dia que prometia ser cheio. Após enviar uma
mensagem de texto ao Yaser, o amigo lahori, confirmando o encontro às 9h da
manhã, caí em sono profundo para cinco minutos depois acordar sobressaltada com
fortes batidas na porta.
Levantei tensa e joguei um dos xáles sobre o vestido que ainda usava, abri a porta, e os dois recepcionistas do hotel se encontravam parados, sorridentes, carregando uma bandeja com algo que parecia um coquetel. Em coro, cantaram: “welcome drink”. Apesar de cansada, não resisti aos risos. Aceitei a bebida e me despedi. Fechei a porta e deixei o copo sobre o criado-mudo sem a menor coragem de descobrir do que se tratava. Sabia que no Paquistão bebidas alcóolicas eram proibidas, então nem imaginava o que podia ser aquele líquido amarelado que me fora oferecido. Voltei para a cama e nem bem fechei os olhos, novas e intensas batidas. Assustei-me. Perguntei quem era e em reposta recebi: “Por favor, abra senhora!” Mais uma vez abri a porta, e dois novos rapazes me perguntavam se eu precisava de algo. Azeda, respondi que às 5h e meia da manhã, apenas dormir. Eles se despediram, fechei a porta e voltei pra cama. Resolvi ligar para o Yaser, apesar do horário, para tentar entender o que acontecia, com sono ele foi educado e apenas disse: ignore e não abra mais a porta. Nem tinha desligado o telefone quando ouvi novas batidas e de novo o “Por favor, abra senhora”. Silenciei e eles continuaram, pedi que fossem embora que queria dormir, repetiram a frase de tal forma que imaginei que estariam chorando. Sem desligar o telefone – de alguma forma me sentia mais segura com um amigo do outro lado da linha – fui até à porta e abri. Felizes, dois outros jovens diferentes me entregaram jornais.
Levantei tensa e joguei um dos xáles sobre o vestido que ainda usava, abri a porta, e os dois recepcionistas do hotel se encontravam parados, sorridentes, carregando uma bandeja com algo que parecia um coquetel. Em coro, cantaram: “welcome drink”. Apesar de cansada, não resisti aos risos. Aceitei a bebida e me despedi. Fechei a porta e deixei o copo sobre o criado-mudo sem a menor coragem de descobrir do que se tratava. Sabia que no Paquistão bebidas alcóolicas eram proibidas, então nem imaginava o que podia ser aquele líquido amarelado que me fora oferecido. Voltei para a cama e nem bem fechei os olhos, novas e intensas batidas. Assustei-me. Perguntei quem era e em reposta recebi: “Por favor, abra senhora!” Mais uma vez abri a porta, e dois novos rapazes me perguntavam se eu precisava de algo. Azeda, respondi que às 5h e meia da manhã, apenas dormir. Eles se despediram, fechei a porta e voltei pra cama. Resolvi ligar para o Yaser, apesar do horário, para tentar entender o que acontecia, com sono ele foi educado e apenas disse: ignore e não abra mais a porta. Nem tinha desligado o telefone quando ouvi novas batidas e de novo o “Por favor, abra senhora”. Silenciei e eles continuaram, pedi que fossem embora que queria dormir, repetiram a frase de tal forma que imaginei que estariam chorando. Sem desligar o telefone – de alguma forma me sentia mais segura com um amigo do outro lado da linha – fui até à porta e abri. Felizes, dois outros jovens diferentes me entregaram jornais.
Antes que uma
procissão de pessoas decidisse que meu quarto era um lugar sagrado, avisei
endemoniada que iria dormir e sob hipótese nenhuma abriria novamente a porta e
que caso tivessem qualquer “welcome qualquer coisa” para me dar, que por favor
me entregassem em pelo menos cinco horas ou que deixassem na entrada, de onde
eu retiraria mais tarde.
Enfim, a paz, o
sono, o calor. O calor insuportável. O calor realmente insuportável. Dei um
pulo da cama, arrancando o vestido. O ar-condicionado parara de funcionar, mexi
na lâmpada e ela não acendeu. Ligo na recepção e o atendente me avisa sobre as
constantes interrupções de luz no país. Desligo frustrada e procuro a janela.
Não há janelas no quarto. Uma cortina pesada de veludo cobre uma parede grossa
e embaçada de vidro, sem qualquer mecanismo que permita sua abertura. Esgotada,
uma boa ideia afasta o choro. Corro para o banheiro imundo e abro o chuveiro.
Entro embaixo da água, gelada para o meu consolo. Sem coragem de usar as
toalhas sujas do hotel, me visto encharcada e me deito feliz na cama coberta
com xáles.
Às 9h da manhã
desperto com o interfone. Era Yaser, pontualmente vindo me buscar para o café.
Apesar das poucas horas de sono, me sentia bem e pedi que subisse ao meu
quarto, sem me dar conta que este ato, repetido diversas vezes ao longo dos dez
dias que fiquei no país, fez os empregados do hotel entenderem que éramos
casados, já que a amizade entre homens e mulheres ou namoro são conceitos
inexistentes no país, que segrega os gêneros mesmo após o casamento.
Nos
cumprimentamos com um abraço, depois de um longo processo de preparação a que
submeti o moço enquanto ainda planejava a viagem. Tentei mostrar que não havia
sentido em encontrar um amigo de tão longe e não poder dessa forma demonstrar afeto.
Defendi que não havia maldade ou segundas intenções no ato. Ele aquiesceu.
Tomamos café juntos e andamos pelos arredores.
Yaser tinha 29
anos. Alto e forte, cabelos pretos e fartos, rosto largo e bochechudo, nariz e
queixo proeminentes, e olhos emoldurados pelas características olheiras
paquistanesas. Costumava reclamavar da pele esverdeada que assumia uma
tonalidade ainda mais escura durante o verão e, assim, ele se via preso a
tratamentos estéticos, sempre às voltas com cremes clareadores, obsessão cosmética
de dez entre dez paquistaneses.
O rapaz era
engenheiro químico, mas em decorrência das constantes crises no país, há cerca
de quatro anos se encontrava desempregado. Sua situação era espelho de muitas
outras situações de jovens formados no país. Estava deprimido e tinha grandes
dificuldades em falar sobre o futuro. Sendo assim, passávamos horas falando
sobre o presente, ainda que este não fosse feliz ou fácil. Para sobreviver com
a mãe viúva, Yaser alugava a porção superior de sua casa por 200 dólares ao mês
e dava aulas particulares de química e matemática por três dólares a hora.
Mesmo assim, não se atrevia a reclamar muito da vida, em um país onde mais de
85% da população é analfabeta e miserável.
Voltamos ao
hotel pouco antes do horário de almoço. Ele precisava ir para casa ver a mãe e
trocar de roupa para ir à mesquita. Eu cheguei ao Paquistão em uma sexta-feira,
dia da semana em que o trabalho é suspenso após o horário de almoço e em que a
tarde é dedicada às orações. Nesse dia, os jovens trocam o jeans pelo shalwar
kameez, a roupa tradicional do país, o tal pijama branco que eu havia visto
pela primeira vez na Austrália. Nas cabeças de homens e meninos, o chapéu
cobrindo cabelos, em sinal de respeito a Alá – como Deus é chamado no Islã.
Mulheres rezam em casa, protegidas por véus ou dupattas.
No hotel, eu
aguardava um outro amigo, Muzammil, o DJ. O paquistanês cabeludo era analista
de sistemas e músico nas horas vagas. Adorava cantar e produzir bandas de
amigos roqueiros, à revelia dos críticos de plantão, religiosos que não viam
com bons olhos o hobby do moço. DJ era apaixonado por Sehrish, uma paquistanesa
de Islamabad, cuja família não aceitava o relacionamento dos dois. Costumavam
se encontrar escondidos para fazer planos de um futuro juntos que ainda
duvidavam se seria possível. Foi de um desses encontros furtivos que ele chegou
a Lahore. Trazia um presente comprado em conjunto, um sino dos ventos, para que
quando eu ouvisse o som lembrasse do casal.
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| eu e Dj |
Ao sairmos do
quarto para ir à rua, fui surpreendida pela presença de todos os funcionários
do hotel, que resolveram almoçar no chão do hall do meu andar, bem em frente ao
meu apartamento. Ao abrir a porta, dei de cara com o olhar de cerca de 15
homens curiosos, que nos convidavam para almoçar.
Resolvemos
comer em um Mac Donald´s. O fast-food era uma solução segura para um paladar conservador
como o meu. Mas, nem tão segura como eu imaginava. Pedi um Bigmac, sanduíche
tradicionalmente feito com hambúrguer de bife. Para minha surpresa, no lugar da
carne vermelha, hamburgueres de frango altamente apimentados. “Mas, eu pedi
Bigmac normal!” DJ balançava a cabeça, sorrindo: “O Bigmac normal aqui tem
carne de frango e pimenta, você tinha que ter pedido um especial de bife, sem
tempero!”
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| McDonalds,com seus detectores de metal e muita pimenta |
Caminhando de
volta ao hotel, descobri que precisava ir ao banheiro, depois de quase 1 litro
de coca-cola para amortecer a língua. Paramos, então, em uma galeria de
tecidos. Após passar por uma sequência de detectores de metal – que estão por
toda parte, na entrada de todo e qualquer lugar aberto ao público em Lahore –
um segurança nos apontou o toalete feminino. Tomada daquela sensação de
incontinência que acomete pessoas “apertadas” quando elas se aproximam do
banheiro, saltei à distância uma velha deitada no batente da porta e estanquei
incrédula diante do buraco aberto à minha frente. Não havia vasos sanitários no
banheiro. Só buracos e buracos, uns aos lados dos outros, separados por paredes
finas, com pequenas jarras de água no canto. Senti a vontade de usar o banheiro
imediatamente passar e voltei às gargalhadas para onde me esperava DJ.
Expliquei que não fazia ideia de como “usar” os buracos e questionei a
existência de banheiros com vasos. Ele descobriu um deles no último andar.
Enquanto subíamos, as luzes se apagaram, a escada rolante travou e eu, em
pânico, agarrei Muzammil. Absurdamente constrangido, ele sussurrava: “Pode me
soltar, só acabou a luz, não é um ataque terrorista”.
Ao entrar no
banheiro, verifiquei que não havia papel higiênico em nenhuma das cabines. Duas
meninas conversavam em frente ao espelho e perguntei se elas sabiam onde eu
poderia conseguir papel. Sem compreender elas me perguntaram para quê. “Eu
pretendo usar o banheiro.” Uma delas me olhou enojada e disse: “Aqui usamos a
ducha, é mais higiênico.” Constrangida, tentei consertar: “Mas, e como vocês se
secam?” Ao que uma delas replicou: “Naturalmente”.
Na volta ao
hotel, pegamos um rickshaw – espécie
de moto acoplada à uma mini-carroça, utilizada como táxi em Lahore –, foi só aí
que tive a dimensão do trânsito caótico do Paquistão. Automóveis de todos os
tipos e idades atravessam as vias sem sinalização, em todas as direções e
velocidades. Enquanto isso, dezenas de pessoas, adultos e crianças, atravessam
de um lado a outro ruas e avenidas, driblando carros, caminhões, motos, ônibus,
bicicletas, camelos e rickshaws, como
numa partida de videogame.
Os dias que se
seguiram foram felizes e divertidos. Eu já me acostumara à sujeira dos lugares,
ao caos e aos olhares curiosos. Entre passeios, conversas e compras eu ia me
deixando amar aquele lugar estranho, muitas vezes miserável, mas paradoxalmente
lindo, culturalmente rico e habitado por pessoas generosas e amigáveis.
Construções antiquíssimas e milenares, inúmeras áreas verdes, mesquistas
iluminadas, em contraste com prédios decadentes e em ruínas, uma profusão de
fios elétricos e pôsteres de propaganda.
Impressionava-me
a circulação restrita de mulheres nas ruas e no exercício de funções de
trabalho em hotéis, restaurantes e lojas. Sempre homens por toda parte. O
âmbito de influência e lugar de presença das mulheres é o lar. Desde cedo elas
são doutrinadas para se tornarem esposas, mães e boas donas de casa. Nisso
consiste o mérito de uma mulher. Apenas famílias mais modernas investem em
educação e permitem que suas mulheres tenham uma carreira. Um bom casamento é,
na maioria das vezes, motivo de orgulho maior do que um sucesso acadêmico ou
profissional. E isso se reflete na pomposidade das bodas.
Eu estava na
casa Cintia, com Umair, aguardando a sogra para irmos a um centro de compras.
Ela entra no carro carregando dois álbuns grossos com fotos dos casamentos das
filhas. A princípio não me dei conta que se tratava de dois casais diferentes,
isso porque os casamentos foram arranjados entre irmãos, muito parecidos. As
duas filhas da Sra. Malik casaram com dois irmãos, Rana Musharraf e Rana
Muqarab. Envaidecida com os meus elogios em relação aos trajes das noivas e
decoração da festa, ela lembra de um casamento que acontecia na casa vizinha e
me arrasta para fora do carro, no intuito de me levar até lá. Em um calor que
deveria beirar os 40 graus, uma menina linda, em um vestido de noiva azul e
vermelho, coberta de jóias, estava sentada em uma cadeira, de frente pra uma
cama repleta de mulheres que riam alto e cantavam músicas. Ela parecia cansada,
molhada de suor e, ao ser cumprimentada por mim, deu um sorriso débil e
agradeceu.
Festas de
casamentos podem durar dias e, durante este tempo, cabe à noiva ficar sentada
por horas em um banco ou cadeira, recebendo os cumprimentos dos convidados da
celebração, o que pode se tornar uma tortura caso algum dos familiares decida
pela realização da festa no verão.
Para ocidentais
o evento pode ser exaustivo e entediante, mas as decorações e os trajes são exuberantes
e um espetáculo à parte, a comida é farta, a conversa é boa, e paquistaneses
apreciam estes eventos, já que são uma das poucas formas de interação social
religiosamente aceitáveis no país.
Deixamos a pobre moça em meio às hienas
cantoras e fomos até o mercado comprar pulseiras de vidro, souvenires
tipicamente paquistaneses, que enfeitam os pulsos de todas as mulheres do país.
Produzidas artesanalmente, são lindas e sensíveis, se quebram a qualquer
pressão. A agilidade e delicadeza das paquistanesas no trabalho doméstico
permite que lavem, passem e cozinhem, usando dezenas dessas pulseiras em ambos
os braços, mantendo-as intactas até o final de cada dia.
![]() |
| mercado em Lahore |
Passando por um
beco escuro, próximo de uma área de esgoto, de chão úmido e paredes lotadas de
propagandas na língua local, nós logo chegamos a um pequeno agrupamento de
barracas onde me deparei com as multicoloridas bangles. Sem saber por onde começar, ia apontando uma a uma as
cores dos conjuntos que pretendia comprar, para a satisfação do dono da
barraquinha e cobiça de seu assistente. Quando dei por mim, o homem quase
desaparecia atrás do balcão coberto por uma infinidade de pulseiras. Nessa hora
entra em cena a sogra. Exercendo a função de minha advogada, ela passa a
negociar um a um os conjuntos de pulseira, numa disputa de nervos que
impressiona. É o divertido jogo da barganha, que eu como estrangeira, não
saberia jogar. Os ânimos se acirram, as vozes se elevam e uma infinidade de
caretas provam que estou diante de grandes atores. Consigo acompanhar um pouco
da história, porque os valores são tratados em dólar e escuto, pouco a pouco,
os preços despencarem em função das pressões da Sra. Malik. Saio feliz
proprietária de duas caixas cheias de pulseiras, para a satisfação dos
vendedores e de minha orgulhosa interventora.
![]() |
| negociando pulseiras com Mrs. Malik |
No retorno ao hotel, paramos em um restaurante a pedido da mãe de Umair.
Ela volta carregando pacotes de pão, que logo corta em pedaços servindo a si
própria e nos enfiando – a mim, Cintia e Umair – goela abaixo, em pequenas
porções.
Estacionando o carro para que eu descesse, Umair é
abordado por duas figuras inusitadas. A Sra. Malik se excita e me faz descer do
carro para uma sessão de fotos com ela. Dois travestis, bem maquiados, trajando
roupas tipicamente paquistanesas e femininas, abusando de trejeitos coquetes e
de frases ambíguas e divertidas. Fiquei assombrada. Nunca imaginei encontrar
tais personagens em um país islâmico e conservador, cheio de regras rígidas de
conduta para homens e mulheres.
![]() |
| travesti "paquistanes(a)" |
E foi com a sensação de que o meu tempo era pouco para o
tanto de surpresas que o Paquistão guardava que deixei o país, com a
expectativa de um dia retornar e descobrir um pouco mais de todo aquele
universo, para mim tão alienígena quanto humano.
Dubai
(2012): Estou a três horas do meu paraíso
Durante três
anos e meio planejei retornar ao Paquistão. Ao longo desse tempo ampliei meus
vínculos com o lugar, estudei sua política, sua cultura e sua história. Fiz
novas amizades e passei a frequentar as reuniões das mulheres que se
relacionavam com paquistaneses, elas apaixonadas por homens, eu por todo o
país.
Decidida a voltar, me dei conta de que muita coisa seria
diferente. O país já não era mais uma autocracia, Osama Bin Laden havia sido
finalmente capturado, o número de explosões e ataques haviam diminuído bastante
e estavam restritos às áreas em guerra, Yaser havia arranjado um emprego, a
Sra. Malik já não estava entre nós, Muzammil e Sehrish finalmente casaram (um
com o outro) e eu não iria para Lahore, e sim para Islamabad.
Cheguei em Dubai no começo de fevereiro, revi velhos
amigos, fui a clubes noturnos, quase perdi o controle em promoções de
shoppings, enquanto me preparava para um período de dez dias no longínquo
Japão, antes de pisar em terras paquistanesas.
Ansiosa eu calculava os dias e as horas para a próxima
etapa da viagem, e pensava que estava tão perto, mas logo estaria novamente
longe do meu objetivo principal e final, que era voltar ao Paquistão. Pensava
nos amigos queridos, nos lugares novos que iria visitar, nos tecidos coloridos,
nas pulseiras de vidro, no povo simples e de comportamente, por vezes,
engraçado, no chamado para as orações – Azan – que ecoava das centenas de
mesquitas espalhadas pelas cidades.
Estava a três horas do paraíso, mas ia demorar um pouco
mais para chegar, porque antes ia encontrar amigos nas distantes ilhas
nipônicas.
Japão:
“Porque os nossos paquistaneses são mais produtivos”
Cheguei ao Japão às 17h, depois de
um voo de 7h e meia, turbulento da metade para o fim, devido aos fortes ventos,
comuns na região. Depois de longas horas de stress, o medo de voar se tornou
insignificante, incapaz mental e fisicamente que eu estava de prolongar por
tanto tempo os rituais que costumava repetir a cada balanço da aeronave.
Em Osaka, à perturbação pelas horas
de voo instável, somou-se a confusão durante minhas tentativas de compreensão
dos textos ininteligíveis em placas por todo o aeroporto. Eu não entendia uma palavra do que via e ouvia e já
não tinha forças nem para me irritar. Por sorte encontrei um casal de brasileiros
descendentes de japoneses que falavam fluentemente a língua e serviram como
intérpretes em um diálogo com a guia responsável pelo ônibus que me levaria à
Nagoya.
Em Nagoya, Melissa e Kashif me
esperavam. Eu tinha conhecido Melissa há alguns anos, em um dos encontros de
mulheres que amam paquistaneses. Ficaria hospedada na casa deles durante dez
dias.
Melissa é a jovem mãe de uma
adolescente e de uma menina de 8 anos, meiga e engraçada, tem os cabelos lisos
e negros e olhos levemente puxados, heranças genéticas da família japonesa, mas
é encorpada como boa parte das brasileiras, razão pela qual vive em guerra com
a balança.
Kashif, um paquistanês de Karachi,
capital da província de Sindh, região portuária e importante centro financeiro
comercial do país, mora há vários anos no Japão. Compra e vende automóveis,
negócio dominado pelos paquistaneses no país onde são produzidos alguns dos
melhores carros do mundo.
Ao contrário de Dubai, onde a acumulação
de riquezas é controlada e mais ou menos restrita aos árabes locais e a alguns
investidores internacionais, no Japão, esforço e empreendedorismo são sempre
recompensados, e muitos paquistaneses e estrangeiros advindos de partes mais
pobres da Ásia encontraram na terra do sol nascente oportunidades de crescimento.
Muitos paquistaneses acabam casando
com japonesas ou mestiças, descendentes como Melissa, que é neta de japoneses
por parte de mãe e filha de um brasileiro.
Em um país não-islâmico como o
Japão, os paquistaneses tendem a ser mais tolerantes com hábitos
ocidentalizados. Ao mesmo tempo, não se sentem tão deslocados, porque o país
apesar de moderno mantém tradições antigas que o tornam mais conservador que
outros países laicos.
Conversando com Melissa, no entanto,
ela me relatou vários dramas envolvendo paquistaneses e suas mulheres no Japão.
Muitas delas, sem saber, eram esposas de um segundo casamento dos maridos – cuja
religião permite a poligamia –, homens desesperados por vistos japoneses ou que
se apaixonaram pelas novas mulheres, sem coragem ou caráter suficiente para
romper os antigos laços com suas esposas paquistanesas. Alguns deles mantinham
por anos as duas famílias até que a bigamia viesse a ser descoberta, muitas
vezes tarde demais, quando ambas as mulheres já haviam lhe dado filhos ou a
situação deles no Japão já estava consolidada.
Fato é que a comunidade paquistanesa no país é relevante
e produtiva e, pouco a pouco, cede à miscigenação com os japoneses.
Durante os dez dias que fiquei no
Japão, vivenciei a dinâmica de famílias multiculturais, como administram a
rotina, os impasses e os acordos. Conheci o lado rural e urbano do país,
passando os dias entre Hamamatsu e Tóquio, e senti a harmonia existente entre o
velho e o novo, o antigo e moderno, o natural e o tecnológico. Mas, meu tempo
por lá terminava e em poucos dias eu retornaria ao Paquistão.
Paquistão (2012): O retorno
Voltando de Osaka, passei por Dubai
exausta, mas precisei de exatos dois dias para me reanimar.
Pronta para a terceira etapa da
viagem, peguei um táxi para o aeroporto cerca de 2h e meia antes do voo.
Agradeci a Deus ter chegado tão cedo. Uma fila enorme de indianos carregando
caixas gigantes contendo televisões de LED aguardava para o check in. Todos falavam ao mesmo tempo e
não fosse tão improvável, qualquer um poderia supor que eram todos parentes,
tamanha a intimidade com que berravam uns aos outros, trocavam caixas e malas e
deixavam os últimos passarem à frente. Resolvi sentar em um dos bancos e
aguardar o fim da fila indiana.
Já no avião, ao localizar meu lugar,
uma mulher completamente coberta chama a minha atenção e pede para que eu
troque de assento com o marido que estava sentado em outra fileira. Sozinha,
concordei com o pedido e passei para o outro lado da aeronave. Quando já estava
sentada, me dei conta de que estávamos próximas, separadas somente pelo
corredor. Tive a impressão que sorriu pra mim, mas não pude confirmar porque um
véu negro e espesso lhe cobria a cabeça, com duas pequenas aberturas que só
permitiam entrever o par de olhos. Senti-me ligeiramente mal ao observar minhas
calças pretas justas e o vestido curto cor-de-rosa e abotoei o casaco. O marido
era jovem e bonito, vestia uma shalwar kameez bege sob um casaco da mesma cor,
usava o chapéu das rezas e uma barba islâmica que ia até a altura do peito.
O voo foi em boa parte tranquilo,
dentro dos limites para um voo lotado de paquistaneses. A decolagem é um
sofrimento para comissários de bordo e pessoas com medo de voar, como eu. Com
todas os avisos luminosos acesos e o avião ganhando velocidade, ainda havia
passageiros teimando em reorganizar malas no bagageiro ou simplemente em pé ao
lado de outros, batendo papo como se estivessem em um bar. Durante as horas de
cruzeiro, é impossível dormir ou ir ao banheiro. Todas as crianças decidem
chorar ao mesmo tempo, mulheres riem e falam alto, homens circulam. Botões de
chamado aos comissários são constantemente pressionados por passageiros que
sempre querem mais água, comida, e atenção.
A aterrissagem é um desafio à parte. Meia hora antes, o piloto sinaliza o
procedimento de descida. Comissários a postos, começam o processo de
convencimento dos passageiros, que deverão sentar-se na posição vertical,
apertar os cintos e aguardar a chegada do avião ao solo e sua completa parada.
Depois de longos minutos de insistência por parte dos funcionários da companhia
aérea, todos os passageiros estão posicionados conforme as regras de segurança.
Pelos meus cálculos faltavam cerca de cinco minutos para a aterrissagem quando
uma paquistanesa magra e alta, em shalwar kameez vermelho, solta o cinto e,
como se estivesse apostando uma corrida de 100 metros rasos, percore o corredor
até o banheiro sem dar tempo de o comissário interceptá-la. O homem nervoso
esmurra a porta e ordena que saia e retorne ao lugar antes que o avião pouse. A
mulher ignora. Ele promete arrombar. Um minuto depois, ela sai como se nada
tivesse acontecido, segue calmamente para o seu lugar, enquanto o comissário
esbaforido retorna ao seu assento, em sincronia com a aterrissagem que ocorre
nem um segundo depois.
A visão do aeroporto me emociona. Como o Papa polonês, tenho ímpetos de
beijar o chão, mas o bom senso me impede. O que praticado por alguns é ato
nobre e solene, por outros pode representar indício de insanidade.
Era minha segunda vez no Paquistão e
a primeira em Islamabad. Novamente, amigos queridos me aguardavam no saguão. A
população da capital federal, mais acostumada aos estrangeiros em virtude das
inúmeras embaixadas e consulados estabelecidos por lá, não me encarava com
tanta intensidade quanto no aeroporto de Lahore. Mishal, Zohaib e a pequena
Zahra portavam um cartão com o meu apelido e pareciam felizes em me ver, talvez
não tanto quanto eu em vê-los e em retornar ao país.
Após uma agradável noite de sono,
dessa vez sem os percalços da primeira noite em Lahore, acordei com Mishal
convidando para o café da manhã. Zohaib tinha ido para o trabalho e ficaria
fora até o fim do dia.
Mishal, que é brasileira e foi
registrada Everyn, assumiu o nome islâmico após sua conversão, dias antes do
casamento. Maquiadora, trabalhava desde os doze anos em salões de beleza,
produção de desfiles e televisão, mas com tranquilidade abriu mão da profissão,
assumindo as funções de mãe e dona de casa. Sem grandes conflitos com o marido,
ajustou-se à cultura, à religião e ao país.
Conversamos o dia inteiro e, com a
chegada de Zohaib, concordamos em jantar fora e ir até uma bela região de
montanhas, conhecida como Margalla Hills, que fica localizada aos pés do
Himalaia. Depois de uma ida ao supermercado, onde alguns curiosos nos
perseguiam por entre gôndolas, aparentemente atraídos pela língua diferente que
falávamos, passamos em uma rede de fast food e compramos sanduíches. Dali,
seguimos direto para Margalla, subindo uma estrada cheia de curvas e que não
terminava nunca. Depois de vários minutos, chegamos a um dos pontos mais altos,
de onde se estendia uma das paisagens mais impressionantes: toda a cidade de
Islamabad podia ser vista do alto, abraçada por uma cadeia de montanhas.
Na descida, paramos em uma cabana
para um chai (chá) e, em seguida, uma
caminhada. Aflita, observei inúmeras placas que avisavam: Macacos mordem!
Zohaib explicou que naquela área existiam vários animais selvagens e as pessoas
tinham o hábito de querer tocar ou alimentar os bichos, em particular, macacos.
Por via das dúvidas, não quis me distanciar muito do estacionamente, o que foi
motivo de risos por parte dos meus anfitriões.
| macacos me mordam! |
Dois dias depois, Zohaib nos levou
às minas de sal de Khewra, a algumas horas de Islamabad. Atravessamos pequenos
vilarejos e logo chegamos às montanhas de sal, cuja descoberta data da época de
Alexandre, o Grande. Contam que quando ele passava pela região com suas tropas,
notou que os cavalos começaram a lamber o chão. Intrigado, teria se juntado a
eles e verificado que as rochas eram salgadas.
Percorremos cerca de 500m mina
adentro, em uma espécie de trem, semelhantes àqueles comuns em parques de
diversão, bastante corroído pelo sal e pelo tempo. Descemos próximos à uma
mesquita de sal, construída no interior da mina, que quando iluminada, dava a
impressão de arder em fogo, assumindo variados tons de laranja. Outras
construções, tão ou mais impactantes, se espalhavam pelas minas, que se
comunicavam por túneis, escadarias e pontes suspensas sobre profundos lagos de
água salgada.
| Mina de Sal, Zohaib e Zahra |
Deslumbrada com o que eu tinha visto
até então, estava ansiosa com a próxima etapa de nossa programação: um passeio
pelas ruínas do templo hindu Katas Raj. Eu tinha visto fotos e o lugar parecia
belíssimo, mas para minha frustração, no dia exato que lá estávamos, o sítio
estava fechado para peregrinos hindus e vetada qualquer visita. De longe eu
avistava as ruínas, mas nem um sinal dos lagos de água transparente que
circundam o templo.
| o templo não visitado :( |
Nos dias seguintes, enquanto Zohaib
trabalhava, Mishal e eu carregávamos a pequena Zahra em nossos passeios por
comércios nas redondezas. Já começava a me perturbar a dependência da presença
da um homem para que pudéssemos ir à outras partes. No Paquistão, mulheres não
costumam andar sozinhas e dificilmente são vistas nas ruas das cidades. Na
volta de um desses passeios, observei em frente a um quarteirão com bancos uma
fileira de táxis. Em um deles, um papel na janela anunciava em inglês os
contatos do motorista, que vendo meu interesse, logo se aproximou. Discutimos
valores e sua disponibilidade e, depois de alguma barganha, comprei nossos
passaportes para a liberdade. Seu Nawaz, o motorista, nos buscaria pela manhã
para nos levar ao banco e ao mercado.
Pontualmente, à hora marcada, o
homem tocou a campainha da casa. Pequeno e franzino, Seu Nawaz tinha os traços
característicos de grande parte dos paquistaneses, o tom de pele, os cabelos
lustrosos e as onipresentes olheiras. Um bigode enorme ornava os lábios.
No banco, não consegui movimentar minha conta e me afligi. Teria que ir
até o aeroporto buscar informações nos balcões de câmbio. Seu Nawaz nos levou
até lá, mas ao invés de entrar com o carro no estacionamento, parou no
acostamento de uma grande avenida que passava em frente a um dos acessos do
terminal de embarque. Não entendi seus motivos, mas mais tarde descobri que a
administração do aeroporto resolvera cobrar o estacionamento com base no número
de pessoas no carro. Isso porque, o terminal pequeno era rotineiramente
invadido por dezenas de famílias inteiras que iam buscar ou levar entes
queridos em viagem, dificultando a segurança e a circulação.
Do outro lado da avenida, eu me perguntava de que maneira o motorista
imaginava que eu poderia atravessar a via larga e movimentada, onde automóveis
rodavam em alta velocidade. Diante da minha paralisia, ele saiu do carro e me
respondeu. Chacoalhando os braços e avançando ele foi abrindo caminho entre os
carros, enquanto me gritava ordens para avançar, tal qual Moisés abrindo o Mar
Vermelho para os hebreus. Chegamos sãos e salvos ao outro lado da pista e da
mesma maneira retornamos ao carro.
Já no mercado, Seu Nawaz nos aguardaria enquanto percorríamos as lojas.
Após duas ou três horas, voltamos aonde ele estava parado e nos deparamos com
uma cena curiosa. Entretido, o motorista desmontava a direção do carro,
apertando parafusos e torcendo e retorcendo fios. O automóvel amarelo era
pequeno e antigo, a parte traseira não comportava mais do que duas pessoas, a
lataria estava corroída pela ferrugem e parecia nunca ultrapassar os 40km\h – o
que não era de todo ruim, levando-se em conta o estado recém-descoberto do
volante.
Em meu último fim de semana no país, fomos para Murree, uma cidade
turística no topo de montanhas cobertas de neve. O caminho é tortuoso em razão
da subida e das inúmeras curvas. A mudança de paisagem é gradual e acompanha a mudança de
temperatura. À medida que avançamos, o frio é mais intenso, a vegetação é mais
seca e de coloração arroxeada e a neve cobre o chão. O ar é mais úmido e rarefeito.
Nas bordas da estrada, desafiando penhascos, velhas construções abrigam hotéis
lotados de turistas em qualquer época do ano. As majestosas montanhas de Murree
são destino de gente de todas as partes do país, em particular, de
recém-casados em lua de mel, como Gramado e Campos do Jordão no Brasil. Um
pouco mais pretensiosos, os locais a apelidaram de Suiça paquistanesa.
| Murree |
Em lugares como esse e em outras partes do Paquistão, que incluem Lahore
e a própria Islamabad, os contrastes sociais são ainda mais evidentes. Pessoas
e construções que denotam poder aquisitivo e modo de vida privilegiado são como
rasgos de riqueza em meio à miséria.
O povo sofre com a falta de atendimento às suas necessidades mais
básicas. Não há dinheiro, alimentos, instrução, moradia, saúde, saneamento,
eletricidade e respeito e, algumas vezes, há raiva, intolerância, fanatismo, desunião
e má-vontade. Mas, quase sempre, há sobras de afeto.
Em solo paquistanês, nunca fui discriminada, ofendida ou maltratada.
Apenas, encontrei amigos, histórias e vivi experiências que valem para toda a
vida.
Retornei ao Brasil dois dias depois da ida a Murree, já com saudades
imensas de tudo o que fiz, vi e vivi por lá. Na despedida, após um último
serviço prestado, o amigo motorista, curioso sobre a minha origem, me
perguntava:
-Mas, você é de onde mesmo?
Eu esclarecia:
-Do Brasil, Seu Nawaz.
-Mas, e onde fica esse Brasil? É Reino Unido?
Anos de colonização britânica justificam a dúvida. Paquistaneses mais
humildes e de pouca instrução têm pouco ou nenhum conhecimento de geografia, e
sua única referência estrangeira é o reino em questão.
Eu tentava explicar, mas mencionar a América, do Norte ou Latina, Estados
Unidos ou Canadá em nada ajudou a elucidar a questão.
Diante dos meus esforços, ele apenas disse:
-Não se preocupe não, dona. Só anota aí pra mim o endereço, que se um dia
eu puder, vou lhe visitar.
***
Making of
comentado
Paquistão
em dois tempos
Gêneros
e formatos:
O texto elaborado trata-se de
Narrativa de Viagem feita ao continente asiático, enfocando experiências
vividas por mim, a autora, no Paquistão.
Narrativas de viagem não são textos
turísticos ou roteiros de viagem, mas textos autobiográficos que falam de
sensações e sentimentos provocados por experiências simbólicas.
O impulso de viajar e conhecer novas
culturas, em busca da humanidade que é comum a todas elas, é algo que acredito
que nasceu comigo e se desenvolveu em minha infância e adolescência, por
influência paterna e pela expansão natural da minha própria curiosidade.
Narrativas de viagem envolvem muitos
aspectos: emocionais, culturais, políticos, econômicos, sociais e históricos. O
recorte da pauta é um processo difícil e doloroso porque, invariavelmente, o
sacrifício mesmo de pequenos detalhes implica na simplificação de algumas
experiências que só podem ser compreendidas em sua dimensão se levados em conta
os mínimos fatores que a impactam.
Viagens para mim são, sobretudo,
fontes de conhecimento e entretenimento. E a diversão e o prazer consistem em desvelar
o mundo desconhecido, compreender seus mecanismos de interação, aprender a
lidar com as idiossincrasias dos sujeitos e ser finalmente aceita em novos
grupos.
Viagem é coisa pra quem gosta de
gente, porque não há nada que desafie mais a capacidade do indivíduo em
estabelecer relações humanas que possam garantir sua sobrevivência em situações
as mais diversas. E, em qualquer canto do mundo, só se sobrevive em grupo.
Foi a partir deste ponto de vista
que eu parti ao elaborar o texto, inteiramento expresso em voz autoral. Apesar
de ser um texto fortemente narrativo, em função de sua natureza, busquei trazer
elementos bastantes de descrição, com parágrafos sobre cenas e pessoas,
citações e diálogos, bem como elementos de digressão, quase sempre resgatando
meu fluxo de consciência no momentos das experiências narradas e descritas.
A humanização do texto é
inquestionável, uma vez que sou minha própria personagem e ali exponho em
minúcias meus atos, sentimentos e pensamentos. Em relação aos demais, parti de
duas análises: Uma mais racional e concreta, narrando ações e descrevendo
pessoas fisicamente; outra mais emocional e abstrata: descrevendo emoções, interpretando
comportamentos e expondo impressões sobre os indivíduos com os quais interagi.
Obviamente não esgotei no texto
todas as possibilidades. A narração pode se dar sob diversos ângulos e
diferentes ritmos e linguagens. Considerando prazos e espaço, optei por dar ao
texto um ar divertido e bem humorado, enfocando alguns choques culturais e o
relacionamento com as pessoas. Os primeiros encontros, a curiosidade entre as
partes seguida das reações de incredulidade, o sentimento de pertencimento a um
grupo do qual antes nunca se fez parte. Deixei questões políticas e históricas
em segundo plano, que seriam relevantes e permitiriam um melhor enquadramento
da cultura do país no caso de ampliação deste primeiro texto ou mesmo sua
transformação em livro.
Objetivei exercitar nos processos de
apuração e execução do texto os sete pilares do jornalismo literário, conforme
passo a descrever no próximo item que aborda o processo de definição e
realização da pauta.
Pauta:
A pauta nasceu de uma paixão. Amo
viajar a lugares diferentes e a sensação de choque cultural sempre me causou
mais prazer que receio. No entanto, ao longo dos anos desenvolvi um carinho
especial por um pedaço em particular do planeta, situado no subcontinente
indiano: o Paquistão.
Não sei como nem por que se iniciou
tal processo de identificação, mas uma série de eventos sincrônicos ao longo
dos anos só reforçaram meus vínculos e afeição ao país.
Como em outras situações, o tema se
impôs e não foi previamente planejado. Tanto que a ideia inicial, debatida
durante as sessões de orientação era a realização de um texto baseado em minha
última viagem ao lugar. Mas, ao dar vazão à criatividade na elaboração do
mapa-mental, vi que pontos essenciais da minha primeira estada no país
precisavam ser revisitados. Dessa forma, ao pôr no papel as ideias, optei por
incluir os primórdios de minha relação com o oriente e minhas primeiras
incursões em terras asiáticas.
A presença dos sete pilares do
Jornalismo Literário é inequívoca. A imersão, configurada na viagem em si e no
contato com os nativos do país. A humanização, representada pela voz autoral no
texto e presença de personagens. A responsabilidade assumida em relação ao que
é apresentado ao leitor, bem como a exatidão das informações contidas na
narração. A criatividade é demonstrada através das figuras de linguagem e na
definição do próprio estilo, pessoal e bem-humorado. O simbolismo se verifica
na ação, comportamento, forma de se vestir e expressar dos próprios personagens,
e em minhas decisões baseadas em
impulso, intuição, complexos e atrações inconscientes.
Produção:
A produção se deu ao longo de quatro anos. Tem início com a minha
primeira ida ao Paquistão, em 2008 e abrange meu retorno ao país, em 2012.
Entre 2008 e 2012, li livros sobre o lugar, acompanhei jornais e sites de
notícias e ampliei minha rede de relacionamentos no país. Mantive contato com a
Embaixada brasileira em Islamabad, bem como com a Embaixada paquistanesa em
Brasília. Realizei trabalho de pesquisa e texto sobre mulheres que amam
paquistaneses, e em diversos encontros com elas, absorvi conhecimento útil a
uma melhor compreensão da estrutura social paquistanesa.
De posse de todo esse arcabouço teórico e prático, criei alguns mapas
mentais no intuito de facilitar o processo de elaboração do texto. Utilizei
algumas das técnicas de escrita-criativa ensinadas no curso da ABJL, em
conjunto com as técnicas de visualização ensinadas em aulas ministrada pelo
Professor Edvaldo Pereira Lima.
O momento mais difícil do trabalho, foi a
primeira leitura após a conclusão. Alguns ajustes foram necessários, mas tive
que resistir ao impulso de ampliar ainda mais o texto, sob pena de não
conclui-lo a tempo para a certificação. A cada leitura, imaginava várias outras
maneiras de contar a mesma história e a decisão tomada de manter muitas de minhas
escolhas iniciais veio depois de eu concluir que, de alguma maneira, tinha
alcançado o objetivo da história, que era trazer ao leitor um lado mais
suave e humano de um país e sociedade que é muitas vezes vistas apenas como
rígida e perigosa.
Inspirações:
As inspirações são várias.
Indubitavelmente devo muito aos mestres da ABJL, sobretudo Professor Edvaldo
Pereira Lima que, com sua paixão e didática, me orientou nesse processo de
desenvolvimento dos meus textos. Os conhecimentos trasmitidos através de suas
aulas e livros foram essenciais para o aprimoramento de minhas qualidades
narrativas. Mais do que isso, a honestidade e o zelo, bem como o equilíbrio de
seus posicionamentos nos momentos de avaliação em muito contribuíram para a
minha motivação e auto-confiança como autora e me ajudaram a definir o caminho
que pretendo trilhar daqui para a frente.
No que diz respeito a estilo,
critico e admiro Oriana Fallaci. Embora discorde veementemente de sua postura
demasiado agressiva em relação ao que não concordava e, particularmente, de seus
ataques radicais a muçulmanos e ao Islã após os eventos do 11 de Setembro, aprecio
seus textos inteligentes e sarcásticos, e sua honestidade de pensamento.
É fonte, também, de grande
inspiração, o escritor Tiziano Terzani. Mais do que como autor, sua integridade
e seu pacifismo são valores que prezo e pretendo perseguir. Curiosamente,
conheci mais de Tiziano após a leitura de cartas que ele teria escrito em
resposta a artigos escritos por Oriana, e que foram publicadas no Jornal
Corriere della Sera, onde as duas personalidades que admiro, discutiam a guerra
e a paz no Oriente Médio.
Por fim, dois outros autores também
tiveram suas influências neste trabalho: Karin Mittmann, escritora e professora
alemã citada no início do texto, que escreveu um livro fantástico sobre o
Paquistão, após uma vida inteira no país em função de um casamento; e Fernando
Scheller, jornalista do jornal O Estado de São Paulo que, recentemente,
publicou uma narrativa de viagem deliciosa sobre os dois meses que passou no
país.
Referências Bibliográficas:
LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: O Livro-reportagem como
extensão do jornalismo e da literatura. São Paulo: Editora da UNICAMP,
1995.
MITTMANN,
Karin. Culture Shock! A Guide to
Customs and Etiquette. Singapura:
Kuperard, 2004.
SCHELLER,
Fernando. Paquistão, Viagem à Terra dos Puros. São Paulo: Editora Globo,
2010.
Dawn.
Disponível em . Acesso em: 30 abril 2012.
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